segunda-feira, janeiro 17, 2011

Minhas músicas

Se por acaso alguém ainda bater por aqui, Clique no link abaixo para passear por lá - http://www.reverbnation.com/gutomelo


Um grande abraço a todos!

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sábado, fevereiro 20, 2010

Tempo: intuição e oração

Gaston Roupnel (1874-1946), um historiador e escritor francês, defendia a ideia de que a realidade concreta do tempo é o instante. Para ele, o que de fato importava era o presente, pois via o passado como sombra e o futuro como incerteza. Roupnel também acreditava que a sucessão de instantes conferia o sentido de duração, manifestando assim uma visão linear do tempo. O caráter de urgência que imprimimos às tarefas mais banais, o tal dito para que deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, o espírito hedônico que manifesta constante relutância em adiar o prazer e outras condutas ditas contemporâneas mostram que, de um modo geral, o conceito de Roupnel continua atual, pelo menos quando observamos o mundo em termos práticos.

Bachelard, que era amigo de Roupnel, desmonta esse pensamento para ampliá-lo de modo muito cativante em sua obra A Intuição do Instante. Para Bachelard, por não sermos capazes de acessar todos os instantes de nossa trajetória, muito de nossa vida se apaga, proporcionando um rompimento do ser e um sentido de descontinuidade do tempo. Vai além, ao dizer que por vivermos presos ao instante acentuamos a nossa solidão, pois ao nos voltarmos para o passado nos deparamos com o abandono dos acontecimentos esquecidos; já o futuro, sendo um conjunto de instantes desconhecidos, tumultua a nossa esperança. O resultado disso no presente seria uma solidão mais profunda.

O pensamento me encanta por sua poesia e sofisticação, e creio se aplicar ainda às nossas crises de ansiedade, pois nossas expectativas também são instantâneas e, portanto, marcadas de fugacidade. Reside aí a base de nosso medo vago: tudo é assumidamente transitório, mas a vivência do tempo como algo linear é permanente. Ao cometermos esse erro, diria mesmo que se trata de uma estupidez, vamos sedimentando uma imensa barreira em relação ao tempo. Como conseqüência, suportamos mal a sua ação sobre nós, temos dificuldade em envelhecer, com manifestações do acaso, em aceitar o ritmo próprio do que a vida nos oferta ou simplesmente em sair da rotina, o que nos impõe ocupar o tempo de maneira não esquemática.

Ontem, um amigo me perguntou o que vou fazer amanhã. Eu respondi “não sei, talvez fique em casa”. Ele me falou de festas e eventos na cidade e disse que ficar em casa não era programa, mas sim perda de tempo. Eu disse a ele: meu amigo, o tempo já é perdido.

Abaixo Oração ao Tempo, uma canção de Caetano Veloso de que gosto muito. De quebra Fernanda Motta pinta o artista.






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quinta-feira, maio 22, 2008

Para ter olhos mais acesos


Imagino que, no bocado que já andei por aí, tenha deixado rastros de mim, vestígios que possibilitariam a qualquer ser humano mais atento seguir-me, por onde quer que eu ande. Imagino sombras espelhando o desenho de um comportamento meu, uma atitude minha, e gosto de pensar que essas sombras servirão de refresco em dias de calor na memória do outro.

Lembrar é uma espécie de brilho que se realiza mediante o resgate de afetos. Lembramos para atualizar o registro de nossas vivências, com um quê de fantasia a ocupar as brechas que o próprio lado falível da memória nos proporciona. Então, lembrar-se também é reinventar-se. E por meio dessa restituição, do que o passado nos devolve, abraçamos o instante com sede por um futuro cada vez mais repleto de memória.


Eu vivo de me lembrar. Não por sofrimento, mas, digamos, para ter os olhos mais acesos.

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quarta-feira, abril 16, 2008

Cifras de um mapa


Coração compassivo deixa a sua marca no mundo. Gênio guerreiro se projeta. Os compromissos não chegam porque há uma senhora sabedoria de resistir a pressões externas. E tem gente que diz ser a danada da preguiça. São tão míopes os fofoqueiros!

O profundo desejo de franqueza, honra e dignidade não pode sucumbir a chamados inúteis. Ao mesmo tempo, evidencia-se o jardim secreto, mente insanoculta, privacidade envenenada. O ódio que a ocupa assegura alguma crueldade. E a deixa feliz, feliz, feliz. Como pode?

Bem, se o sol é forte em ti e a lua é débil, melhor ser do dia. Passe a dormir mais cedo e a ler de manhã. Olhe nos olhos do alvorecer, cuspa na cara da noite. Sim, pois tudo pode falhar, exceto o processo de escolha.

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quinta-feira, abril 10, 2008

Hálito-furacão

Talentos especialíssimos, desagarrem-se! Há tártaros em seus sisos sem função. O espelho zomba ao mostrar um rosto repleto de covas, túmulos do universo. Então, não é esta a recompensa desejada. Por isso, talentos especialíssimos, renovem-se e manifestem o divino que há em suas veias. Reforcem os dias que, robustos, irão chacoalhar o destino.


Atuem no que for preciso nutrir, para que o ânimo seja suficiente. Cavar um poço não é mole. Há de se ter braço, muito braço, e sabedoria para escolher o lugar certo. Abundância, poço, China... Talentos, só é necessário sentir o hálito-furacão de seus teores. Só isso e mais nada.

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quinta-feira, março 13, 2008

Árvore enorme

Árvore enorme, que entra pela boca da minha sala e me passa tua língua de ninho de joão-de-barro. Árvore linda! Nos dias em que te abraço, tomo as rédeas do meu destino. Nos dias em que te esqueço, apanho feito um tolo indignado.

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sábado, janeiro 26, 2008

Som na caixa, maestrina!


O corpo de Antonia é um tabu. Apesar do ritual de cortar beiço, do teste do talquinho, das três camas e uma cortina, da pele negra, cabocla, do cheiro latino, magnético sol de áries, oriente, fotogenia, peladeza em praia caribenha... Antonia rodou, pintou o sete e o quatro, e seu corpo permaneceu tabu.

Entre os índios: “me pinta, sou cerâmica!” Era sonho de Antonia, a correr com um vestido transparente e sem calcinha, pelo meio de tribos, de oca em oca, pedindo uma pincelada. Queria mesmo ser borrada de tinta, com critério, ser peça artesanal saída do barro ou da argila. Foi bater nas mãos de Anori, coisa da semana passada. O rapaz a pegou sem jeito, no meio da rampa, depois de todo o vinho e todo o queijo. Nem sinal do sonho. Nem o pelo menos, quando nada.

A rampa Antonia subia todo dia. Aula sim, aula não, subia. Gostava da faculdade até por isso – ia de rampa e não de elevador. Foi-se embora o tracajá, veio nova vinholada, e desta vez deu pinta um tal de Carama, com ares de esperteza, de que tudo sabe, cuspia melanina de tão reluzente.

Carama negão. Deu os primeiros acordes de seu samba, não sabia tanto assim, arranhou um pouco. Confundiu os seios de Antonia, da magrelinha, com algodão e quis colhê-los. Mas era simplesmente uma taça de desejo querendo se libertar da areia preta e do arco-íris cor de sangue. Sim, melodia, cantaste e Antonia ouviste. Havia ali também uma matemática, cheia de incógnitas e ao mesmo tempo rasa. A maestria, Antonia e seus dedos varetas, de regência sinfônica bitolada. Música, Antonia, música!

Carama tinha o cheiro dele. Agradava muito. Abraçava-a com ternura e força, desejo incontrolável de arrancar algo sem ferir. Apertava a própria face para dizer, não sem sofrimento, o seu prazer eterno, insano. Declarou alegria como se faz com as guerras. Ali, naquela mesma rampa, com outro vinho. Tinha medo, tinha modos, uma vontade e várias submissões diante daquele corpo. Um corpo tabu. Um corpo tábua. Tabuada.

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terça-feira, janeiro 22, 2008

As coisas não têm paz

Pés que se adiantam, em silêncio, pelas linhas sinceras que o tempo amigo concede. A virtude da paciência eu trago na vértebra porque um dia me traí. Sei lá se é êxito agora, já que perdi o talento para a empolgação. Assim, as coisas se anunciam para um anfitrião que não quer saber de festa. As coisas pulam sem cessar um só instante e já foram cantadas deste modo tal: as coisas não têm paz.

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quinta-feira, dezembro 06, 2007

O diário dos homens obsoletos – parte 4


Mais uma vez brigaram pelo mesmo motivo tolo de sempre: o dinheiro curto. Ele reclamava do peso em suas costas, talvez por ter costas frágeis. Ela arrotava um resquício de fidalguia, de uma nobreza bizarra, ao se dizer herdeira. Declamava, com certo orgulho, o seu privilégio: não ter de se submeter à lógica imperialista dos dindindons.

No dia seguinte, foi buscá-lo no trabalho, no horário do almoço, com um saquinho de acerolas. É para você – ela ofertou. Estavam vermelhas, bonitas, plenas de viço. Mas ele, que sempre adorou a fruta, comportou-se como se nunca tivesse gostado de acerolas. Mudou logo de assunto, colocou o saco no banco traseiro do carro, aquelas frutas não diziam nada a respeito do seu amor.

Ao voltar para casa, mais uma vez ela veio com as frutinhas, desta vez em uma vasilha. Se quiser fazer um suco... As frutas, juntinhas e alegres, pareciam uma carne morta.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

A melhor dançarina de todos os tempos

A necessidade de engano... As amizades são um modo de enganar com conforto. Sabe aquele amigo que diz “adorei o seu trabalho” para poupá-lo de olhar a incompetência de frente? Porque ele é instruído em fidelidade e afeição, não ignora a inaptidão como uma das mais dolorosas revelações para qualquer mortal. Então, não faz muito sentido pinicar uma pessoa querida com o bico de suas próprias fraquezas. É mais sensato o disfarce, seria indecente não praticá-lo.

Essa proteção voluntária preserva todos da solidão, lógico. Uma premissa imperial que amarra as afetividades, mantém unida a trupe de miseráveis. Assim, fulano passa a ser amigo de sicrano porque o elogiou na semana passada, apesar de ambos não saírem do território da reserva. Os abraços são desfeitos logo após a primeira rusga mais séria, normalmente aquela que compromete a imagem de uma das partes. Mas isso seria em último caso, à roda de sócios não convém ficar quadrada.

Da mesma forma não convém ver a turma dos que bebem uísque com gelo e limão, usam banana como ingrediente de feijoada, dormem em pé no meio de uma conversa animada. No dia em que a vergonha deixar de ser fútil, a confiança nos homens se tornará a melhor dançarina de todos os tempos.

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quarta-feira, novembro 14, 2007

Canção da América que não toca na rádio


América! Venha caber nos sonhos que os braços dos homens sejam capazes de levantar. Pois cedo a alma canta, mas para muitos o império se despedaça antes de qualquer vislumbre de esperança. A pedra, a areia, o reboco, todos os deslocamentos urgentes, a fuga da casa hostil. América, perceba a qualidade dos pelejadores que pisam em seu solo ácido, veneno para os pés, e não podem sequer fingir a ausência do crime em seus caminhos. Não por serem incapazes, mas por não possuírem o direito.

As suas bandeiras são de grana e posse. Labor e selvageria. Pedem por alento aqueles que não pretendem viver para esquecer-se. A aurora é o riso dos céus, a alegria dos campos. Portanto, América, seus vestidos rogam outras estamparias, mais finas e coloridas, expressão de um pano menos irritante. A pele nossa de cada dia é uma oração golpeada pelo machado do tempo, avessos incontroláveis, expedições inacabadas.

Há em suas delícias um quê de perversão. Nas promessas que ventila, armadilhas se tecem. Acreditar é uma exigência de seus dias; ofertar, um refúgio interessado. América, América! Tome tento que a irmandade, o auxílio forte, a gentileza, o abraço acordado – quente ou quase – as mais enérgicas manifestações de solidariedade, são cuspes de sua retórica.

E não é porque nos invade que devemos ser tristes em suas mãos. E nem o brilho de toda a tecnologia será capaz de provar que para cada partícula de alma existe um cobertor de lã. A ciência não vê além do binóculo, desperta a sede por cura prudente. No mato, América, existe tanto mistério! Mas a sua marcha avante engole florestas, destrói sabedorias, consome indícios caboclos para cada vez mais fazer fumaça.

América do leite com soda cáustica. América do desacato à soberania em busca de petróleo. América que finge ter compaixão de aidéticos africanos. América que produz diversos rios de corrupção, sem margens e com córregos caudalosos. América que usa moeda e idioma como mecanismos de tortura. América do cacete da polícia na fuça de quem ocupa as ruas para gritar: não somos mais América! América que nos deu o câncer como herança, medo e banalidade. Não queremos nem a pena, nem a punição, nem a glória bandida. Estamos prontos, para o que der e vier, sempre e alertas. Será tão difícil assim ouvir o nosso espírito?

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Mais uma de amor

O Nelson Rodrigues dizia: o que seria de mim se não fossem as minhas repetições? E lá vou eu tentar dizer mais uma vez que o amor é a única coisa que me salva. O amor me enche de força, mesmo quando vem atrapalhado, confuso, tramando os enredos mais complicados, exigindo uma maturidade medonha, apavorante. Já me empapucei de amor a ponto de envergar-me nos braços de rainhas do subúrbio carioca, musas malandras, universitárias queridinhas. As queixosas me davam coceira na pele. Conseguia beijá-las, se a queixa fosse menor que a inteligência.

Durante muito tempo meu amor foi pobre porque era basicamente voltado às mulheres. Uma festa era menos festa se não tivesse o brilho delas. Quando cursava jornalismo e fui reprovado em economia, paguei a disciplina novamente com a turma de Nutrição, ao lado delas, mesmo tendo que acordar às cinco e meia da manhã duas vezes por semana, o que na época, para um boêmio como eu, era um sacrifício quase cristão. Mas fazia, com a alma repleta de contentamento, pois acreditava que acompanhado daqueles seres divinos eu entenderia melhor Keynes e suas idéias intervencionistas.

Houve também a fase do amor bruto, tal como é, sem esforços ou manufaturas. Este que é quase uma entidade, se apossa e faz com que a loucura mais absurda seja vista como uma bela paisagem de fim de tarde. Então me vi viajando mais de duzentos quilômetros com pessoas que acabava de conhecer, sem saber para onde. Andei em caminhão roubado, tomei cachaça com cinzas. Transei num mosteiro, em pleno carnaval, com todas as bandas e blocos passando. Meu amor passou a ser também pela aventura, pelo movimento, pelo gosto de ir. Reconheço que nunca vivi uma grande aventura, mas essa fase modificou o meu interesse pelas coisas.

Hoje vivo numa espécie de contorno ao mesmo tempo luminoso e escuro. Não reconheço fronteiras, alimento-me de um querer me gastar em todas as coisas. Sou capaz de amar qualquer lance, me encantar com qualquer doce. Seja a revoada de pássaros que me acorda pela manhã, a magia do sol ressaltando as cores de tudo, o sorriso de uma criança que a mãe segura pelo braço quando vai ao açougue comprar carne, o pipi do cachorro na grama, o horizonte, o mar e a saudade. Enfim, o amor virou o meu metabolismo, a minha energia fundamental. E o mundo só vive tapeando esse tipo de gente. Mas a vida não, a vida acolhe.

Consola-me saber que amar não basta, que há um fundo de mentira em tudo que se vive. Que a verdade só pertence a mim, a mais ninguém. Aliás, verdades só fazem sentido assim, quando são chamadas “minhas”. Por isso, sou infiel à história, traio o passado, não por sacanagem ou corrupção, mas por absoluta falta de fé no que está atrás. A memória, que tanto prezo e tanto exercito, divorcia-se constantemente de mim e me libera para novos tormentos. Ela vive a me azucrinar porque a exalto e a engano. Taí o lado escuro do contorno.

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sábado, agosto 18, 2007

Bons amigos que retornam

Quando alguém volta para os braços de seu lugar, depois de ter lambido as pernas da Espanha, traz no seu sorriso tanta delícia, e outro delicioso companheiro, que o estava magnético, presença, magnético todo, com as portas de sua casa abertas, morangos, vinhos e carnes, e família simpatia, e uns doces de pessoa.

E vem o pai, anfitrião, com encantos de Leandro Sapucahy e Kevin Johansen, ilustres que se anunciam pela boca do bom homem, surpresa para mim, surpresa, eu não os conheço, mas agora sim, agora eles vão sambar poemas na minha cabeça, como o mundo fez no mapa de Murilo Mendes.

E vem a mãe, querendo puxar cadeira, gentileza, vocês estão há muito tempo em pé, mas é em pé que não se cansa, e a conversa já estava divinamente esparramada em rede de idéias, bebericando intenções de coisa alguma, prazer de jogar conversa fora dentro, falar é divertido, falar não cansa.

E vem o amigo do peito, aquele que lambeu as pernas da Espanha, que já me deu casa comida e roupa lavada sem nem pestanejar e eu era estranho, as suas viagens são de sol e bicicleta, roubada lá em Barcelona, no ímpeto da primavera, voltaste amigo para junto de um camarada que ultimamente só sabe fazer fumaça, humo, humo, humo, amigo deixaste o meu coração em festa por ti, excitado de lembranças e agoras.

E continua a chegar, aportar em mim que sou lugar de qualquer enlevo que queira caber, são os instantes de gula primazia, são os vestidos estampados de saudade, as conquistas que não precisaram de vitórias, belezas de pedras brilhantes, feito estas prendas que o destino nos concede para mostrar que a vida... a vida vale a pena!

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quinta-feira, julho 12, 2007

A velha na grama

Amor, eu te agradeço. Por me habitar sublime. Por me arrancar da cama. Por me mostrar semana possibilidades. Vem assim, chama e quintal – feira de tomate e carne. Vermelho, vermelho é o amor. Que ignora os termômetros, que atrasa o juízo para dar um passo a mais para a alma perneta. Sou aleijado, sou a febre do futuro. E tenho medo porque de santo não tenho nada.

E de santo não tenho nada porque cada luz é um tormento. E como Adoniran cantou: de vez em quando a luz da Light pifa e a gente apela pra vela. E muitas vezes o jeito é sambar no escuro. E entre amarelo-branco e trevas, cada dia me visita, faz sacolejo.

Hoje eu vi uma velha deitada na grama da capital. Parecia uma rainha, uma deusa engelhada. Grama e velha secas pelo castigo do sol, pela aventura de se expor ao tempo como um desejo ausente. A velha cocegava na sola do pé do meu olho que, sem reflexo, dormia, mas nem por isso eu deixava de ver. E era como se toda a secura dormisse junto, numa espécie de solidariedade insana. E eu me vi poste apagado, sem vela e sem velha. Fui pra casa e chorei.

Eu penso que a vida é uma arte. Uma arte cheia de amor. E amor é graça, brandura, mas também é tristeza. Amar é ter coragem de ver, saber que o choro não representa o fim de nada. Apenas molha a terra da alma, para que faça brotar o sentimento do mundo.

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domingo, junho 24, 2007

Santa felicidade

Uma dia veio o João me dizer que a felicidade está no dinheiro, na capacidade de ter as coisas. Hum, coitado do João. Ele nunca ouviu Vapor Barato, nem curtiu uma de Tim Maia.

Depois a Denise me contou que ser bela é a onda. A felicidade está no que o espelho de uma academia de ginástica consegue mentir. Denise é gostosa, mas ninguém sabe.

Carolina diz que é questão de mérito, competência. Para ser feliz, deve se fazer planos, cronogramas, investimento, análise de custos e benefícios e possíveis riscos. Carolina jamais vestiu um pijama na vida.

Já Lidinha, religiosa e cheia de moral, não perde tempo com prazeres tolos. O lance dela é sacrifício. Juntar para construir. Comprou terreno, está montando casa. Cimento, pedra, areia, tinta e meses de economia e aborrecimentos.

Tonico acaba de sair da prisão. Impaciente, na fila do banco, quis malandrear. Furou a fila, um aposentado reclamou; ele deu um soco na cara velha e murcha do contestador, que não suportou e morreu ali mesmo, na frente de todos. Tonico era macumbeiro e o aposentado um tipo de disfarce, pois ganhava a vida como pastor da Universal. O crime levou Tonico para trás das grades, lugar onde se põe toda felicidade inconfessa.

Mestre Juca Boêmio vivia rodeado de amigos nas farras que fazia no Burundú, boteco quente da redondeza. Adoeceu de uma doença que até hoje não se diagnosticou. Perdeu mais de trinta quilos, ficou encurvado, arriado de não agüentar ficar em pé. Passou sete meses no hospital e só recebeu três visitas. De um dia para o outro, o corpo voltou a ficar reto, pouco a pouco foi recuperando peso. Ganhou alta e nunca mais baixou no Burundú.

Soube que todos eles foram premiados em um sorteio realizado por uma empresa de calçados, onde fizeram compras. O prêmio: um cruzeiro por mares caribenhos. Todos recusaram. Sabiam ao que estavam concorrendo, mas na hora H não suportaram.

Ganhar não é para João. Assim, financeiramente falando, ele é mais liso do que bunda de recém-nascido. Então João é o trauma, a frustração, a contrariedade, tudo na mesma estante. Tem a face contraída das dores do que nunca viveu.

Da mesma forma, engordar não é para Denise - seis refeições diárias durante dez dias entre mares e enjôos. Quis não. Seu corpo, maltratado pela ausência de poesia, nunca se permitiu apanhar da disciplina. Denise é a musa-refém da submissão ao olhar alheio. Até o seu sorriso é musculoso e seco, sem nenhuma carninha para apertar.

Para Carolina, sair dos planos é o mesmo que ser mutilada. Não podia se meter em um cruzeiro e deixar de lado as planilhas, gráficos e plantas da reforma da casa. O novo jardim, os móveis modernos, a bela decoração. Além disso, seu filho tirara seis notas vermelhas na escola e estava pendurado no último bimestre, perigando reprovação. Tinha que ensinar suas lições de mérito e competência para o garoto.

Tonico quis continuar batendo seu tambor e incofessando a felicidade; tinha olho gordo para desmanchar, nêga Luzia para conquistar. Daí, mais jogo era entregar-se ao arranjo de ervas e cheiros, para que a vida não lhe assoprasse mais veneno e a simpatia dos ventos voltasse a fazer morada em seu coração.

Mestre Juca Boêmio adoecia de novo só de pensar em alguma coisa que não fosse se esticar. Vivia deitado em rede e agora descobriu o Pilates, salvação da lavoura. Nunca mais ficaria troncho. Gente demais em um ambiente com mesa, bebida e comida, ainda mais com fartura e requinte, trazia náusea de memória.

Lidinha não podia juntar o cruzeiro para construir nada. O mar não tem tijolo; as ondas não têm telhado. E Lidinha também é daquelas que acredita que quando a esmola é muita até o santo desconfia. Mas e o santo? Pelo menos o de Lidinha nunca desconfiou de nada.

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sexta-feira, maio 25, 2007

Papa-mosca

O amor tem dentes. Por onde passam correntes, como se a boca do amor fosse o eixo de uma grande embarcação. Boca de hálito impuro, aragem das descobertas. As linhas da língua revelam os traçados mais insanos, as volúpias mais queridas. No céu há toda uma galáxia de curas, que explode e brilha por trás do arco-da-aliança que risca a gengiva. O arco tem cores nunca experimentadas; cores que cantam blues e assopram canivetes de isopor.

A boca do amor é gigante. Masca por séculos as criaturas que se entregam. Engole sem o menor esforço as sobras que o próprio amor provoca. Os lábios oferecem a lascívia do tempo e da carne. E basta um beijo para deformar ou refazer o juízo. O beijo da boca do amor é um ponto de interrogação do tamanho das dúvidas que o coração bombeia. E o coração em dúvida é do tamanho de uma mosca.

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domingo, maio 13, 2007

A diferença entre Zé e o seu amor

Quando o Amor de Zé viaja, ele fica encarregado de cuidar das plantas. Uma vez Seu Amor, ao chegar, percebeu que uma delas estava seca e morta. Passou um carão em Zé – Porra, você não viu isso não? O desatento camarada se sentiu uma besta, incapaz de cuidar de plantas.

Seu Amor caiu numa dessas pegadinhas da rede mais manjadas que existe e instalou um cavalo de tróia no computador. Zé ensinou à moça como proceder. Fazer back up, tentar remover o invasor; caso não conseguisse, formatar a máquina e instalar tudo de novo. E ainda falou um pouco sobre os malefícios que o danado poderia causar.

Ah, o autor já ia se esquecendo. Quando o Amor de Zé voltou de viagem, disse que estava morrendo de saudade dele.

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sexta-feira, maio 04, 2007

O puríssimo amor

Eu sei que ela some, mas isso logo passa. Eu sei que ela não some, que invento para me ver presente em seus caminhos desconhecidos. Ela mente sem enganar, canta a vida até foder o maxilar; distrai-se para elevar seu canto e suplantar a dor. Diz que pensa em mim, e pensa mesmo. Poderia ser brincadeira, poderia ser maldade, mas é puro amor.

Hoje vi sobre a mesa de trabalho uma série de fotos estranhas. Eram retratos de uma mulher velha e gorda, mas com um sorriso bonito. Parecia ter vivido muito e suportado tudo aquela mulher. Mas era alcoólatra, diziam os que a conheceram. Perguntei de quem eram as fotos. Não era de ninguém. A velha gorda de sorriso encantador também sumia e não sumia pelas incógnitas que propunha.

E essa era a similitude que as unia. Cheguei até mesmo a ver a morena esguia, com colar exuberante, deslumbramento no olhar, convidar a velha gorda para sambar um coco. E a velha aceitou, risonha como sempre, pronta para o que desse e viesse. Neste momento a morena disse que pensou em mim. E pensou mesmo. Poderia ser brincadeira, maldade, mas não... Era o seu puríssimo amor.

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segunda-feira, janeiro 01, 2007

Festa na Casa de João Paulo Procópio

A morte surge em uma conversa e à mesa. Isso só depois de Sofia e Fernanda terem se retirado para dançar. Duas meninas gentis e promissoras. 2007 será bom depois daqueles abraços quentes, não é mesmo Vagulinha? Um gole de vinho aqui, outro ali e mais outro acolá. Luz de vela serve de isqueiro e no final lambe o papel. Sinal de que devemos ir para a pista de dança também. Eu e Vagulinha. Sábia decisão, pois bastou botarmos o pé fora da grama que a chuva apertou feio no terreno descoberto.

A morte é como Adélia diz: morre-se. E não se resolve dentro da gente. Mas e a vida? E a vida o que é diga lá, meu irmão? – as pessoas cantam quando a eletricidade dá o cano e o DJ fica de calça arriada. Festa também se faz no escuro. Com as palmas das mãos improvisamos um batuque singelo para entoar as canções que alegram a nossa alma. A gente toda do lugar não está menos embalada, nem menos flutuante. Assumimos as nossas reverberações. Chamamos na chincha, sem bronca. Cada samba é um peixe graúdo e a pista é o barco da memória.

Fernanda beija o anfitrião. Depois se instala em um canto e segue beijando a noite inteirinha uma, duas, três, incontáveis bocas. É sem fila a oferta da doçura. É um verso a mais na canção de Gonzaguinha.
Eu e Vagulinha trocamos palavras e carícias e canduras. Eu digo que quero agrasalhá-la e ela ri do mistério do termo atrapalhado. Gralha que é parente do corvo que é poesia de Poe. Gralha que sou eu, pessoa tagarela. Tagarelice esquenta? A luz volta e Tim Maia vem para nos dizer que eles agora estão numa relax, numa tranqüila, numa boa. Nós também estamos.

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quarta-feira, dezembro 20, 2006

Jazzmim

São flores improvisadas o que ouço agora. O trágico Bill Evans toca 34 Skidoo em seu piano iluminado; reforma acordes. Belo post-bop-jazz-piano. Filho de mãe devota e pai alcoólatra o Bill Evans. Na seqüência, Dave Brubeck com Take Five. Ele que tanto sabe captar a lama da meia-noite. Mais um ou dois sopros e caio nas teias de Miles Davis. Old Folks me suspende, me transforma em um pedaço de pano e me prega no céu. São várias partes de mim que formam um pequeno varal, bem detrás daquela nuvem ociosa que parece anunciar que vem chuva. Agora é a vez de Ella Fitzgerald cantar elegantemente com Louis Armstrong. Don’t Be That Way é o som. Meu coração está partido. E eu não tenho mais nada a fazer hoje no trabalho. Vou embora pra casa. E vou levar o cheiro desse Jazzmim.

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