quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Boneco Dim




É isso aí meus caros, usar a cabeça para manter o equilíbrio neste mundo revirado. E sem perder o colorido!

Marcadores: ,

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Minhas músicas

Se por acaso alguém ainda bater por aqui, Clique no link abaixo para passear por lá - http://www.reverbnation.com/gutomelo


Um grande abraço a todos!

Marcadores: ,

domingo, abril 18, 2010

Frase da semana

Toda alma é uma melodia que deve ser renovada.

Mallarmé

Marcadores: , ,

sábado, fevereiro 20, 2010

Tempo: intuição e oração

Gaston Roupnel (1874-1946), um historiador e escritor francês, defendia a ideia de que a realidade concreta do tempo é o instante. Para ele, o que de fato importava era o presente, pois via o passado como sombra e o futuro como incerteza. Roupnel também acreditava que a sucessão de instantes conferia o sentido de duração, manifestando assim uma visão linear do tempo. O caráter de urgência que imprimimos às tarefas mais banais, o tal dito para que deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, o espírito hedônico que manifesta constante relutância em adiar o prazer e outras condutas ditas contemporâneas mostram que, de um modo geral, o conceito de Roupnel continua atual, pelo menos quando observamos o mundo em termos práticos.

Bachelard, que era amigo de Roupnel, desmonta esse pensamento para ampliá-lo de modo muito cativante em sua obra A Intuição do Instante. Para Bachelard, por não sermos capazes de acessar todos os instantes de nossa trajetória, muito de nossa vida se apaga, proporcionando um rompimento do ser e um sentido de descontinuidade do tempo. Vai além, ao dizer que por vivermos presos ao instante acentuamos a nossa solidão, pois ao nos voltarmos para o passado nos deparamos com o abandono dos acontecimentos esquecidos; já o futuro, sendo um conjunto de instantes desconhecidos, tumultua a nossa esperança. O resultado disso no presente seria uma solidão mais profunda.

O pensamento me encanta por sua poesia e sofisticação, e creio se aplicar ainda às nossas crises de ansiedade, pois nossas expectativas também são instantâneas e, portanto, marcadas de fugacidade. Reside aí a base de nosso medo vago: tudo é assumidamente transitório, mas a vivência do tempo como algo linear é permanente. Ao cometermos esse erro, diria mesmo que se trata de uma estupidez, vamos sedimentando uma imensa barreira em relação ao tempo. Como conseqüência, suportamos mal a sua ação sobre nós, temos dificuldade em envelhecer, com manifestações do acaso, em aceitar o ritmo próprio do que a vida nos oferta ou simplesmente em sair da rotina, o que nos impõe ocupar o tempo de maneira não esquemática.

Ontem, um amigo me perguntou o que vou fazer amanhã. Eu respondi “não sei, talvez fique em casa”. Ele me falou de festas e eventos na cidade e disse que ficar em casa não era programa, mas sim perda de tempo. Eu disse a ele: meu amigo, o tempo já é perdido.

Abaixo Oração ao Tempo, uma canção de Caetano Veloso de que gosto muito. De quebra Fernanda Motta pinta o artista.






Marcadores: , , ,

domingo, setembro 20, 2009

Brisas e foguetes - parte 2



Nos últimos dias vem observando o movimento de todos ao seu redor de modo mais detalhado. Uma sobrancelha que se eriça, o entrelace dos dedos das mãos, um olhar que se encolhe ou se arregala, um semblante de “nem te ligo” tentando disfarçar sem êxito a intensa raiva que come por dentro. Afinal, para aprender o fingimento, é necessário estar atento a esses alimentos de percepção e de cinismo, a isso tudo que nos torna simultaneamente espertos e covardes.

Há alguns anos não via o mar. Provocou hoje um reencontro com este sem fim de água salgada em forma de maré. Ao por seus pés na areia, sentiu-se acariciado pela natureza. Sem entender, começou a rezar, a pedir para a morte não chegar tão cedo. Mais tarde um outro reencontro aconteceria: Júlia, aquela mulher que o menino do espírito magro jamais soube se foi sua. Ela iria aparecer em algum momento para por os pés na areia junto com ele.

Os pés de Júlia eram delicados, tão delicados, extremamente delicados. Pareciam não ser feitos para pisar ou caminhar. Levita, minha coragem ausente... E faz de mim o que bem quer. O menino do espírito magro acendia esperanças com o isqueiro da memória. Havia uma oportunidade para rever-se bom, deveria haver pelo menos. Olhou para o céu e convenceu-se de que estaria lindo nesta hora. Não poderia falhar.

Da vida sempre lhe restaram as migalhas. O pão mesmo, com miolo mole e manteiga, ficava para os seus inimigos burros. Daí, julgava-se mais burro que eles. E vivia o abandono de sua própria fúria contida, acocorada - uma fúria na posição de cagar que não expulsava merda nenhuma. Uma estupidez a lanciná-lo com o silêncio da força que não acontece para fora.

A maré foi aumentando, o mar ficando mais cabuloso. As dinamites que explodiam na Cantareira e faziam as janelas da sua casa tremerem destruíam o seu vigor de espera. Júlia não viria, denunciava o passar das horas. Mas lá ao longe, havia um cisco humano. Quem sabe, o coração se alegrava. Quem dera, o coração se assumia.

Os pés na areia não deixariam pegadas. Júlia teria de ressurgir.

Marcadores: , ,

quarta-feira, setembro 16, 2009

Brisas e foguetes – parte 1



Foi um tanto doloroso constatar que para ser livre deveria permanecer confinado em seus próprios pensamentos. Tudo que pede ação, em algum nível exige submissão. E obviamente a ação é mais corpulenta quando manifestada pelos que têm poder. Sim, melhor ficar imerso em seu mar de ideias, todas suas, impenetráveis, devidamente protegidas... o ar... o fôlego...

Às vezes tenciona desaparecer, transformar-se em algo impalpável, não ser minimamente reconhecível, daí nada de fotos, filmagens, qualquer registro. Pensa em ir para o interior, morrer cedo, em meio ao cheiro de cocô de boi, fazendo o chá de uma erva venenosa sem saber. Ser anônimo falsamente integrado a outros anônimos, esquecer que a vida impõe aparição.

Dia desses viu pai e mãe e se perguntou: como pude vir da união de dois seres tão anômalos de mim? Ou pela lógica, seria eu o aberrante, por ter vindo depois? Mas o fato é que a genética deve ser uma maldita farsa, não é possível. Olhava para o pai e não compreendia bulhufas das incessantes tentativas em afirmar categoricamente as vezes de sua categórica ignorância. O ignorante que se sente superior é o fim da picada. Já a mãe tem o coração imenso, uma loucura admirável, uma bondade à flor da pele. Por outro lado, uma sentimentalidade crônica, que para tudo ergue um melodrama. Oferece cansaço tão genuinamente quanto as suas virtudes.

O menino do espírito magro (vou chamá-lo assim daqui por diante) reconhece a sua natureza ativa, medonha, o gosto por associar-se. Mas ultimamente vem cedendo, na dúvida se é sofrimento ou desapego, ao insulamento, por descrer no calor emanado pelas ilusões cotidianas. Não acredita mais valer a pena a entrega, a paixão, os acordes que executa em seus instrumentos. Vem achando tudo um grande engano e uma grande chatice. Não consegue ter ódio, consequentemente não consegue ser sórdido. Tampouco alcança o grito que se perdeu dentro de si. Talvez um grito trouxesse nova libertação; talvez não, só um abismo mais profundo.

Já pensou que muito sexo, todos os dias e com pessoas distintas, o salvaria da inércia. Foder, foder, foder! poderia ser o seu grito de guerra! Mas que guerra, e contra quem? Apaga a ideia. Ela volta. Apaga mais uma vez. Nova insistência. E neste vaivém, pensa que um dia a gangorra pode pender mais para um lado. Poderá tanto ser um monge, quanto um maníaco. Poderá viver quantos tipos de prisão quiser, afinal ainda há muito tempo.

Tempo. Esta palavra lhe traz arrepios. Embora esteja meio enjoado da vida e prestes a perder a sua capacidade de encantar-se, uma de suas maiores alegrias no momento é descobrir, a cada dia, que não está tão doente quanto pensava. Seu corpo ainda responde bem às pílulas de positividade ingeridas. Por exemplo, não perdeu completamente a espontaneidade do sorriso. E quando este vem, vem aberto, sonoro, unindo as orelhas. No entanto, cogita seriamente em parar de sorrir por um tempo, para não participar a sua pureza a quem vive soterrando seus intuitos de aproximação. De antemão sabe que só poderá ter êxito fingindo. E a partir de agora, será feito isso – passará a fingir tudo o que for possível.

Marcadores: , ,

sábado, janeiro 31, 2009

Duro


Os cascos
Remediando-me
Alisados pela ternura dissipada.

Lento
Sigo pé travado
Doido por sustento
Atirando insuficiências e imperfeições.

Tiro
Nuca dói
Talo coça
Garganta desfiada e submissa.

Sinto
Um misto de tudo
Um gozo adiado.

Levo
A paixão comigo sofre
Na alma o desabrigo
Todo dia o polvilho da batalha.

Riso
Supremacia do gesto
Instituto de beleza capenga
Pontífice acidente.

Os cascos
Atenuando-me
De um perigo repleto de ponderabilidade.

Marcadores: ,

domingo, agosto 10, 2008

Paredes derretidas


Acendeu a lâmpada, com viva esperança. Acendeu com classe, com o estalar das horas o animando, a ponto de não saber mais marcar o tempo. O relógio tornou-se nada, pois a luz que viria daquela manga de vidro roubara todos os seus olhos. Foi um simples acionar de botão, um disparo automático do dedo. Mas o ambiente permaneceu escuro. Não, a lâmpada não estava queimada. Tratava-se de um borrão da imaginação.

Decidiu então plantar uma árvore. Semeou com semente encontrada ao acaso, quando passeava pelos vãos de outras árvores. Logo viu o tronco se fazer robusto, as ramificações se insinuando como mãos dançarinas. A árvore cresceu rapidamente e ganhou altitude respeitosa. O semeador promoveu uma festa, chamou todos os amigos, escancarou a janela. A exibição daquela arte que brotou da terra seria um determinante máximo de vida. Todos em seus postos, ela não estava lá. Com os olhos cheios de sobressalto, o semeador dirigiu-se a um senhor que o ajudou a regá-la. Arrumou uma trouxa de raízes e foi-se embora para outro solo - disse o homem.


Sua próxima tentativa foi abraçar as paredes de casa. Ficou meses em busca de um jeito. Primeiramente, esticou os braços, depois o corpo inteiro, tudo bastante inútil. Comeu demais, engordou um pouco, afastou alguns objetos. As paredes ali, paradas em sua função. Descobriu, então, uma técnica especial para derretê-las. Moles e mornas, poderia abraçá-las. E assim foi feito. Este homem passou a ter o peito repleto de felicidade, porque agora poderia viver com paredes derretidas em seus braços.

Imagem – Jean Michel Basquiat, sem título

Marcadores: ,

quarta-feira, maio 28, 2008

Aprendendo matemática

Pequeno corpo celeste dentro de um planeta, que agrega outros corpos miúdos feito o meu. Uma relação de conter e estar contido, matemática básica que desde cedo aprendemos, mesmo sem ter despertado uma consciência espacial. Os lugares foram feitos para nos situar, o que só acontece quando entramos neles e atentamos para essa matemática dos conjuntos. A interseção com as coisas do mundo vem dos tempos de criança, quando levamos os objetos à boca. Mais uma operação precoce a se refletir continuamente ao longo de cada trajetória e no modo como realizamos descobertas.

Encontros e relações têm um quê de interseção. Fala-se muito de união e desunião nas relações; pouco se fala da interseção, desse corte que cada ser humano oferece ao se aproximar, desse eixo duplo construído a partir do que instintivamente se enlaça, do produto simultâneo. Da mesma forma, as relações são marcadas pela aritmética mais vulgar. Vivemos de somar, subtrair, multiplicar e dividir o tempo inteiro. Seja reconhecendo, em meio ao nosso processo constante de transformação, o que o outro nos adiciona; seja por conta de uma atitude violenta que subtraia uma virtude preciosa, ainda que temporariamente; pela distância ou tempo triplicando uma saudade; pelo algo se partindo, às vezes de modo exato, às vezes deixando restos.

Para além da aritmética, razão e proporção parecem, nos dias de hoje, apontar para uma álgebra esquisita. Alguém dá um tapa e recebe em troca um tiro no olho. Isso talvez pudesse ser chamado de desrazão e desproporção, no pior sentido dos termos, mas evidencia a deformação matemática preferida de nossos tempos. Logo após, no ranking algébrico, as equações formuladas em planejamentos sem delta nem raiz: não resolvem “x” algum de questão nenhuma, apenas revelam a incapacidade humana diante do que permanece incógnita.

Já na geometria, cabe toda a abstração que dá contornos à beleza e a incursões subjetivas. Nela residem a angulação dos pontos de vistas e as estruturas, mais ou menos flácidas, das obras de arte. Também foi a partir de um “sopro” geométrico que o universalismo platônico despontou com o ideal de bem comum, criando um dos alicerces da filosofia política no mundo. Em Timeu, o artesão divino busca pôr ordem à desordem que naturalmente a geometria do universo propõe. Para Platão, de modo análogo, a Justiça, resultante de um ordenamento racional, só se manifestava se o governante incorporasse ao seu espírito a virtude do Bem, visto como eterno e absoluto. Apenas o governante que procedesse dessa forma teria a capacidade de ser justo e proporcionar o bem comum.


Na probabilidade está o fascínio pela sorte, que gera o gosto pelo risco. Arriscar-se traduz um imenso desejo por sorte. A exposição ao perigo traz, ao menos no plano mental, o sofrimento como resultado mais provável. Em um exemplo rude, trepar sem camisinha é correr o risco de se contaminar; por outro lado não há certeza de contaminação e muitos se arriscam contando com a sorte. Existem também formas mais brandas de experiência acerca do provável como, por exemplo, jogar na loteria. Apostar na mega-sena, ganhando-se ou não o prêmio, não acarreta nenhum tipo de insegurança para o apostador. Talvez porque o bilhete milionário represente a sorte grande, e o perigo guarde relação com sortes nanicas.

Marcadores: ,

sábado, março 29, 2008

Das veias de uma mulher

No início são apenas pedaços de pano de chão com a imagem de um retrato 3x4 da mulher impresso neles, uma cadeira antiga e a expectativa do público. Logo a mulher surge com uma maleta numa mão e um aparelho de som na outra, tocando o seu mantra surdo. Um rapaz a acompanha para coletar seu sangue. Ele traz uma seringa que tanto pode injetar sonhos quanto sugar arquétipos.


Todos os objetos que aparecem são pessoais e o sangue mais parece a intimidade que escorre. Um dos pedaços de pano mostra o seu rosto abortando angústias medonhas. Ao lado, o sangue pinta frustrações no tecido e logo após cristaliza. Ela recebe o olhar do público como uma compensação, já que não pode doar sangue por pesar menos de 50 quilos. Mostra-se assim não sem receios, mas confia que suas apresentações a deixam mais e mais saudável.

No ato, ela mistura o líquido vermelho com água para amolecê-lo e obter mais consistência. Daí detona um traçado firme e impulsivo, em linhas sinuosas ou retas, transfigurando o rosto estampado nas estopas. Ela se faz santa e diaba sem intenções, apenas entra e fica à vontade. Em questão de poucos minutos, seu sangue muda de cor, escurece e se aproxima do marrom. Seca.

Antes de decidir se expor, ela fez tudinho em casa. Prestou atenção no cheiro, tinha medo de dar bicho. Sim, medo de ser podre, de todos perceberem, de ser denunciada pelas moscas. Mas os olhos da platéia querem mais é se perfumar com a beleza de sua entrega. No meio do povo, alguém ousa filmar a sua apresentação. Ela já é desinibida, não se importa. Algumas semanas depois, o moço a encontra no mesmo lugar onde tudo aconteceu. Miram-se e cumprimentam-se com timidez. Ele tira uma fita da bolsa e a presenteia. Era a santa, a diaba e quem mais coubesse prolongando o seu momento. Era a memória de sua exibição.

Marcadores: ,

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

O último gole d'água


Os risos são fartos e indissolúveis. Coisa de quem tem a vida frouxa e os dentes bonitos. De longe, aquele alarido de alegria, como uma fogueira queimando o silêncio dos ouvidos sinceros. Sim, o eco daquela satisfação excessiva era uma espécie de abuso, de injustiça. Tanto contentamento só pode ser signo de uma terra falsa, onde se plantou plantas falsas. No fundo, tanto riso acomoda a desimportância assumida diante dos arredores. Quem ri demais e sempre não se interessa por ninguém: é um viciado.

Dantas, de dentro de seu quarto, encolhido em seu beliche, ouvia essas risadas com o maior brio que pudesse arrancar do espírito. Na escuridão, a valentia não aparece e, para Dantas, eles não sabem do que estão rindo. Enfim, tanta gente reunida, às 4 da manhã de um domingo, e a morte continua sendo aquilo que não conseguimos iludir. Mais uma tosse, a dor que antes consumia somente o peito agora se espalha por todo o corpo.

Os objetos da casa, em sua quietude, não traziam paz. O tapete indiano paralisou tudo o que ali se encharcou – suores, uísques e traumas. Estes ficaram por conta de Lúcia e de sua eterna predisposição à beligerância. Quantos xingamentos, tantos que a memória nem mais aquece. A mulher de sua vida deixara dívidas, sonhos desfeitos, uma cicatriz na altura da vesícula desenhada pela faca do ciúme e o desespero terrível em quem teve de engolir uma ausência inesperada. Ela se foi, sem nada dizer, depois de tudo desmanchar.

Do camiseiro de imbuia, retirou um pijama limpo. Não queria mais dormir nu. Olhou para a peça como se fosse a última coisa que iria vestir na vida. Voltou para o beliche com os olhos úmidos de saudade da sua saúde. A força que outrora o compusera era a única coisa de que realmente sentia falta.

Tinha sede. Dirigiu-se até a cristaleira para pegar a taça em que ia sorver o líquido divino. As mãos tremiam com dignidade. A taça ganhava robustez, tamanha a dificuldade em mantê-la viva. A água tinha todos os gostos possíveis: de doce lembrança dos tempos em que aprendeu a andar a cavalo, da esperança que alimentou o seu jovem coração nas passeatas pela Cinelândia. Gritava-se tanto a expulsão dos homens que aleijavam o país! De amargura presente em cada traço da casa, dos vestígios da diaba que foi embora. “Mas um dia, um dia eu a amei com todas as minhas forças.”

As risadas prosseguiam, apesar da distância. Antes demasiadas, tornavam-se cada vez mais intermitentes. Dantas abriu um sorriso tenro, atento ao último gole d’água. A dor no peito jamais havia disparado tão resolutiva. O corpo, que jamais pertencera a ele, assumia esta verdade.

Marcadores: , ,

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A palavra e o bicho grilo

Uma palavra suspira por contornos exteriores. Ela quer enamorar-se nas frases, que se transformam em bancos de praça, ao redor um belo jardim e vendedor de paçoca. Um significado se insinua, mas ela o repele. Encanta-se com o som do grilo. O bicho se apresenta em pleno entardecer. Seria mesmo um grilo? A palavra não quer compromisso com a realidade. Apenas os gemidos a partir do que dela se avizinha.

Marcadores: ,

domingo, dezembro 02, 2007

Crescimento


Alvéolo
Pureza miúda
Contingência e surdez
Espiga curvando o milho
Conceito variável do ponto em
Questão que o sujeito desponta a
Confusão assolada gostoso excesso de se refazer
A cada instante na dobra felina corrida verbetérea
Sambando tintas e celebrando américas amarradas ao divã-sol
Cativado no poço da panela tristificando a coisa certa rastejante
Roscas em miríade depostas na grama atravessada em travessuras e sonhos
Rajadas ao vento fungando o vinil do pescoço do dulcíssimo tiranossauro rex.

Marcadores: , ,

quinta-feira, novembro 22, 2007

A primeira meia hora


Dinheiro, preguiça e traição: essas três palavras formaram o primeiro panorama do dia, logo quando abri os olhos, pela manhã, elas estalaram como se fossem ovos e minha mente uma frigideira. Não importa o processo pelo qual elas se insinuaram; às vezes as palavras me invadem, mas nesta ocasião se esparramaram e, derretidas à espera de algum sal, para ganharem melhor gosto, foram se afirmando alimento e acendendo a minha fome.

Não compreendo, a princípio, tamanha força, pois das três nenhuma traz significado ou lembrança atraentes. Era como se me pusessem contra a parede, como se eu tivesse cometido alguma injustiça, visto que havia nelas um rigor indestrutível, e tal seriedade, posta sem cerimônia assim nos primeiros bocejos do dia, só pode ser mau prenúncio. Embora praticamente qualquer palavra me encante, desconfiei destas, mas obviamente guardei a desconfiança a sete chaves.

Dinheiro é coisa que não encontra reinado em minha alma. Não se trata de recusa ou desfeita daquilo que, quando não existe, mata os prazeres mais simples e os desejos mais bobos. Já houve época, por exemplo, que não tinha nem uma moedinha para comprar um picolé. Mas nem por isso foi desperta em mim a vontade de possuir dinheiro abundantemente. Aliás, de certo modo, achava essa escassez um tanto divertida. Estranhamente divertida. Era o momento em que minhas angústias se desfaziam porque se revelavam absolutamente inúteis.

Da preguiça tenho ao mesmo tempo ódio e admiração, dependendo de como ela se manifeste. Existem os que, por preguiça, sugam energia alheia ou, pior, traçam planos impossíveis para justificá-la. Mas há aqueles que sabem viver a preguiça de um modo bem delicioso. Há um tipo de gente que assume uma lentidão, uma contra-corrente, uma pausa de tudo porque em seu íntimo conhece jardins muito mais floridos e ímpetos muito mais elegantes do que os contos da carochinha que este mundo nos apresenta como sedução. Estes seres são corajosos e, acredito, descobriram cedo como driblar a mentira, a arrogância, a culpa e outras bases nocivas para ficarem abraçados ao sossego do próprio calor.

A traição simplesmente é uma das poucas formas de existência que me transtorna a ponto de eu querer matar, de sentir a ira-combustível para o extermínio. Trair é enganar com maldade e prazer, é a mais profunda forma de desrespeito e a covardia mais cretina. A primeira traição conheci aos seis anos de idade, quando saí da casa de minha tia e voltei a morar com minha mãe, de quem mal tinha lembrança. Quando estava grávida de mim, ela socava a barriga, pulava os degraus das escadas, até um chá de um velho feiticeiro ela tomou, na intenção de me perder. O tal chá tinha tanta sujeira que a velha só fez tossir e vomitar, nada de aborto. Ainda bebezinho, me deu para Tia Lígia cuidar. Tive boa roupa e comida, ouvi ópera, Agnes Baltsa, Plácido Domingo, Alfredo Kraus... coisa que, apesar das torturas de minha mãe após ter me tomado de volta, jamais abandonei. Quando não rezava a cartilha da velha, ela me surrava com uma correia, a mesma utilizada para matar baratas. Antes de apanhar, mandava-me cheirar o couro. Não sei por quem fui traído – se por minha mãe, por minha tia ou pelo destino. Foi mais fácil depositar toda a minha fúria neste último algoz. Aos 17, fugi de casa. Matei o meu destino e fecundei um outro.

Separadamente, creio que tenho essas palavras muito bem resolvidas comigo. Mas juntas, conforme elas apareceram nesta manhã, me atemorizam. Até porque me senti inclinado a, conscientemente, subordinar-me a elas. Senti em mim uma força a me empurrar para o abismo do “faço qualquer coisa”, um alto grau de comprometimento de todos os meus atos. O bloco dos termos tornou-se absurdamente uma espécie de aspiração. Via-me aos pés da gratidão, pela concessão da manhã. Cabia-me agora o encargo de me reorganizar, com a maior prudência possível, já que estava dado o primeiro passo para uma grave desintegração. Devia começar por me dar por contente pelo fato de o meu passado ter se desapossado de mim. Havia também Margarida, que não tinha só nome de flor. Ela era o perfume mais honesto que já conheci na vida.

Fui então cumprindo com as primeiras rotinas, escovando os dentes, fazendo a barba. Embaixo do chuveiro, dinheiro, preguiça e traição me molhavam, me ensaboavam, me preparavam para mais um dia que, já previa, acabaria em exaustão. Mirei-me no espelho para achar um penteado diferente, passei o creme de Margarida na pele em busca de algum frescor inédito. Invenções selvagens de um ritual repentino, dúvidas latejantes. Eu já era o submisso ou apenas tentava me agarrar a pequenas alegrias salvadoras? Mastiguei o cereal mais lentamente do que de costume, bebi o copo de leite com certa aversão – eu que adoro leite. Dinheiro, preguiça e traição: acho que essas palavras me agradaram porque ainda não foram suficientemente rebaixadas pelo cúmulo insignificante. A minha esperança era, ao longo do dia, eliminá-las pelo suor.

Marcadores: ,

sábado, novembro 10, 2007

Uma fronteira para o grito


Inseguro entre o céu e a estepe, suspenso num fluir de roda gigante, embebido na minha nostalgia de centauros, eu devoro pedaços de musgo e raízes de plátano, estendido em jardins intermináveis onde se modelam arcanjos. Teria sido muito mais fácil escrever cartas de amor, para serem estendidas ao longo das estradas e pelas paredes dos tribunais - são inúteis para a vida, porém, estes poucos instintos que lentamente se devoram uns aos outros - sobra-nos apenas uma memória de fugas de amantes, a grandeza do gesto de um epiléptico, a solidão profunda dos grandes sedutores. Há sonhos, porém, que nos acometem com uma simetria de gaitas-de fole - há também a necessidade de escrever testamentos, sempre obscuros, insultando os jardineiros das praças públicas, e aqueles que comem hóstias com uma regularidade de aranha e armazenam pontas de cigarros em cofres de aço, temerosos da posteridade. É absolutamente necessário, também, conclamarmos à união os famintos de santidade, os guardiões de serpentes e domadores de circo, os exploradores dos subterrâneos das pontes e viadutos, os exilados voluntários, para partirmos juntos em busca da inviolável liberdade dos caminhos seguidos ao acaso, e da verdade contida nas escadarias, pórticos, e paredões desabados.

Texto - Cláudio Willer
Imagem - O Grito, Edvard Munch

Marcadores: ,

sábado, setembro 29, 2007

Flecha de cheiro

Quando se moveu para o centro, ponto em que sempre depositou descrença irrestrita, queria formar as bases elásticas de sua grande aventura. Espalhar-se feito gás pelo mundo, com aparência de espuma, a partir das coisas mais genuínas e mais espúrias que o constituíssem. Ou então, em outro formato, algo como um sorvete de lepra, e ver em cada língua infectada a semente do contágio pela palavra.

Jamais pensara em permanecer agarrado ao que fosse proteção. Viu o reboco cair, seus nervos sumirem por entre as vértebras para a ciática desmentir a sua perna. Era a esquerda, que vibrava um acorde fino de dor lá na sola do pé. Nessa hora inventou de ser cigano e, como sempre viu as coisas ao revés, em vez de ler mão, leu pé, embora o pé não seja o avesso da mão.

Viu nas linhas do pé que o seu pulmão era atlético, que os ares ali eram transformados, viravam aromas, e o corpo assumia a forma de uma flecha de cheiro. O arqueiro nu apontava para o horizonte e disparava suas intenções, sem o encargo de acertar um alvo. O importante era o corpo-flecha-de-cheiro encontrar narinas, quais fossem, que suportassem ser penetradas com toda violência e não sangrassem. Quando isso acontecesse, estaria nos braços espertos da admissão mais encantadora.

Foi para essas coisas que cogitou segurança. Para que depois de se arrebitar, não pudesse cair assim fácil. E, como ainda não aprendeu a sentir que ser livre é o suficiente, buscou o poder para facilitar as coisas. Mas se atrapalhou todo porque - apesar de saber como ninguém escolher, expressar e defender o que gosta - perdeu a fé na persuasão. Optou, voluntariamente, por não querer convencer mais ninguém de coisa alguma. Então, a cada embate se manifestava a preguiça como um direito recém-conquistado e era justamente isso o que deveria nutrir e preservar agora.

Entretanto, vê também o perigo de ser preguiçoso depois de ter se movido para o centro e ainda não ter se tornado gás. Em momentos de desespero, clama pela aventura. Como resposta, o destino lhe apresenta passeios de barco, por um lago não tão fundo, com coletes salva-vidas. Ou ainda, um vôo curtíssimo para uma cidade vizinha que parece tanto com o lugar onde mora. Talvez seja melhor esquecer tudo e começar tudo novamente.

Marcadores:

quinta-feira, julho 12, 2007

A velha na grama

Amor, eu te agradeço. Por me habitar sublime. Por me arrancar da cama. Por me mostrar semana possibilidades. Vem assim, chama e quintal – feira de tomate e carne. Vermelho, vermelho é o amor. Que ignora os termômetros, que atrasa o juízo para dar um passo a mais para a alma perneta. Sou aleijado, sou a febre do futuro. E tenho medo porque de santo não tenho nada.

E de santo não tenho nada porque cada luz é um tormento. E como Adoniran cantou: de vez em quando a luz da Light pifa e a gente apela pra vela. E muitas vezes o jeito é sambar no escuro. E entre amarelo-branco e trevas, cada dia me visita, faz sacolejo.

Hoje eu vi uma velha deitada na grama da capital. Parecia uma rainha, uma deusa engelhada. Grama e velha secas pelo castigo do sol, pela aventura de se expor ao tempo como um desejo ausente. A velha cocegava na sola do pé do meu olho que, sem reflexo, dormia, mas nem por isso eu deixava de ver. E era como se toda a secura dormisse junto, numa espécie de solidariedade insana. E eu me vi poste apagado, sem vela e sem velha. Fui pra casa e chorei.

Eu penso que a vida é uma arte. Uma arte cheia de amor. E amor é graça, brandura, mas também é tristeza. Amar é ter coragem de ver, saber que o choro não representa o fim de nada. Apenas molha a terra da alma, para que faça brotar o sentimento do mundo.

Marcadores: , ,

quarta-feira, julho 04, 2007

Chocolate quente

Quero falar deste copo. Deste copo que abriga este líquido quente que vou beber agora. Ele contém uma temperatura a ser engolida. Sou eu o monstro, com a língua manchada de sebo, de tanto que desgovernou, quem irá tragar o apetitoso. É o chocolate da vida que se apresenta. Eu só faço cheirar antes, pra sentir a quentura já nas narinas.

Do copo ao corpo. O líquido desce pela garganta lento e macio. Talvez seja o costume de beber o calor. Este líquido é um sentimento, caldo de prazer e desconforto, volúpia abrasante de medos e sonhos. E está neste vidro cilíndrico, parecido com o que eu quebrei ontem. O copo contém amargura, infância feliz, brigas, explosões, luzes e amêndoas, que caíam da árvore na calçada em frente à minha casa antes de eu me desapossar. Marcavam o chão, chamavam as formigas. A raiz da árvore arrebentou a calçada, rachou o muro, invadiu meu espaço. Tamanho agito para que as amêndoas ficassem mais nobres.

Amêndoas também são os olhos dela, que me olha doce. Às vezes me olha arredio e me sinto só. Aliás, solidão é coisa minha desde que comecei a calçar 33. Descobri, olhando para o pé, que eu poderia ser o que quisesse desde que optasse por ser só. Então, tanto faz o jeito que ela olha pra mim. É amêndoa e não me fere.

Estou na metade do que o copo me oferece. Meu corpo se esquenta. O que entra em mim, entra escorrendo. A essa altura, já sinto tudo morno, acomodado. Em pouco tempo chegarei ao fim e, como sempre, com a mania de olhar para o fundo do copo depois de ter ingerido tudo. Mais uma vez, ver o copo vazio e embaçado, com restos grudados nele, à espera de água, esponja e detergente. Dentro de mim, os ácidos quebram as coisas tristes que ouvi e as noites iluminadas que respirei. O chocolate da vida se divide em várias partículas que vão me nutrir e me deixar esperto. É assim: o sabor se transforma em sustento. Estou teso, tesudo, adoravelmente quente e alimentado. Pronto para mais um copo.

Marcadores:

sábado, junho 16, 2007

Quando o cinza é quente


O dia cinza é sem vigor para dar conta dos milhares de aloprados que gritam incessantemente na Avenida do Sossego. A chuva cai mais zelo que impedimento. Ela molha a cólera para da secura não brotar os estilhaços da inutilidade. Com a garganta molhada, não há fenda ou abalo que desmanche o protesto. Mesmo que a Terra se abra e engula os aloprados, todos estão úmidos de excitação, prontos para a defesa. Se isso acontecesse, a Terra os vomitaria de volta.

Eles pedem pelo fim da Guerra dos Cabaços, da chamada Cabaçagem. E também querem demolir os preços e obter mais vias de comida para os miseráveis lá de Poção das Almas. Ainda reclamam das filas que os velhos enfrentam para encher o bolso de migalhas. Migalhas que não compram sequer os remédios que abrandam seus estertores.

A Cabaçagem é uma guerra travada em portos, estradas, hospitais e escolas. Com os navios coxos, rodovias repletas de tumores, leitos rangendo de rabugice e letras que se afogam onde nem existe mar, o povo vai morrendo antes mesmo de nascer. De fome de saúde e de doenças várias, como a biteatite aguda, que ataca o cérebro já mal alimentado e deixa o sujeito com uma puta dor de cabeça. A danada lateja até explodir e a criatura morre com os miolos esparsos e absolutamente desengonçados. É a coisa mais triste de se ver quando acontece com crianças.

Do pouco que se sabe, a Cabaçagem começou em Zimbábue, espalhou-se pela África Setentrional, foi bater na Polônia e desembarcou aqui no Brasil lá pelos idos de mil novecentos e uma fumaça que não se foi ainda. Deve ter devastado outros territórios que a história se encarregou de fraudar. Seja lá como for, o protesto dos aloprados foi disparado por conta da morte de Dario Szjaman, um soldado que voltou para casa depois de anos de batalha com a glória de ter derrotado o gigante de mármore, um dos principais ícones cabaços. Dario foi baleado em uma padaria de esquina quando mordia um pedaço de pão com mortadela.

Com faixas, bandeiras e apitos, os aloprados caminham em direção a vários consulados. Jogam ovos e seus gritos úmidos nos muros. Um caminhão de som dos organizadores do protesto perde o freio e atropela um bolo de gente. Correria, empurra-empurra, suor e desespero tentando descerrar a fenda da secura, roubar o líquido espesso da garganta. Os aloprados abrem-se mais do que qualquer greta para dar passagem ao socorro. Logo se ouve dos vinte e cinco em estado grave no Hospital das Luzes. Um outro morreu na hora. Um padre que passava em meio ao tumulto quis fazer reza com o morto.

- Mas os cabaços não lançam bombas nas igrejas. Aliás, os templos de hoje são praticamente seus aliados. Ensinam uma fé sem simbologia e fazem o povo cismar que o seu caminho para a morte vai ser mais tranqüilo – vibram as cordas de um aloprado.

Diante da reverberação dessas palavras, o padre foi se encolhendo, contraindo queixo, peito, ombros, membros até virar uma concha de carne e osso. O morto continuou morto, talvez mais feliz.

Em Poção das Almas, Pitinho, magro e barrigudo de verme, assiste pela TV à sanha dos aloprados, ao espetáculo das beledicências. Empapuçado de fubá, ri com a cena do padre. Sua infância de angu e alegoria, chão seco e garganta molhada.

- Mãe, será que Poção vai ter mais comida?
- Filho, pode até ser. Mas se nos derem comida nos tiram o estômago.

Pitinho não economiza no fubá. Ele confia nos aloprados e não sai de frente da TV de jeito maneira. Percebe um velho curvo se aproximar de um aloprado. Ele tira umas migalhas do bolso e o chão começa a estrondar. Os corpos tilintam – são pulsões, moedas, vidros, louças, pedras de água. Os corpos são a loucura que não podem secar jamais. E aconteceu. A Terra se abriu e engoliu todo mundo, para o delírio e a perplexidade de Pitinho.

Durante alguns minutos, a imagem que aparece na TV é barrenta e borbulhosa. A Terra está enjoando e as bolhas vão aumentando de tamanho até que ela não agüenta mais e expele tudo de volta. Os aloprados voltam mais aloprados com a sua umidade invencível. As migalhas do velho ganham a cor do ouro e seu dorso vem mais prazenteiro que antes.

Pitinho chama a mãe para ver a maravilha. A mãe não chega e a TV, depois de uma série de chuviscos e pipocos, se apaga. Ele sente uma grande força vinda dos ares.

- Mãe, está chovendo comida!

O menino corre para pegar as delícias carnosas e divinas que caem do céu. A mãe está arriada de dor, no chão da cozinha improvisada, com as mãos do desespero postas sobre a barriga.

Marcadores: , ,

segunda-feira, junho 04, 2007

Cada coisa no seu tempo


O sonho que o alegra está nas mãos de outra pessoa. Portanto, sua realização nada mais é do que um presente embrulhado no destino de alguém. Agora mesmo, Francisco está um pouco triste porque quem está com o seu presente desistiu de seguir em frente. Ela tem os motivos dela, todos sérios, íntegros e compreensíveis. Ele jamais soubera ou sentira que a integridade alheia fosse fonte de tanta fraqueza.

A viagem a Cuba foi cancelada de última hora. Ana abalou o coração comprometido, o ânimo e o afeto não menos íntegros que a sua vontade de ficar. A casa colorida por plantas sadias, adornada por objetos simpáticos sobre móveis antigos feitos de madeira escura. Austeridade e alegria reunidas no lar. Um tesouro delicioso para quem já morou em tantos lugares, se mudou incontáveis vezes, fez, desfez e refez sua vida durante sempre e eternamente até aqui. Taí o principal motivo da desistência: o tesouro da imobilidade desejada.

Já Francisco só quer saber de expandir-se, de se ver alargado, esparramado no meio do mundo. Ele é um mensageiro invocado, que se rasga entre a ternura e o ciúme, que se assanha todo com qualquer ligeireza chamejada pelos monstros de luz que habitam dentro e fora dele. Está descontente com sua rotina partida, com o tempo que tem de dedicar ao que não lhe faz nem bem nem mal. Queria mesmo era ter todo o tempo para derramar-se, feito um líquido humano ou uma avalanche de escândalos. Mas o tempo é uma das forças imponderáveis que a vida tece.

Em um primeiro momento, a carona estava armada. Ana convencida de que seu destino de cigana era o seu traçado básico entre o céu e a terra. E Francisco, que nunca pisou em terra estrangeira, sorvia a dádiva de poder ir para mais longe de sua pátria. E isso significava ir aos bares com cabines especiais para os amantes urgentes, tentar compreender o sabor de um picolé de gelo, suco e barro, o contrabando de carnes, a dupla moral cubana, o privilégio de ver as lascas da regência de um Fidel desaparecido mas ainda vivo. Talvez a última chance, o último suspiro da ilha.

Para Ana, a grande novidade, o grande mistério foi ter a coragem para romper com a natureza inglória de ver suas coisas sempre em caixotes, em malas, resumir a sua vida a pouco mais de trinta quilos. Qualquer excesso na bagagem são cobrados os olhos da cara. E o brilho dos olhos de Ana quando molha as plantas na varanda vale mais e não pesa nada. Quanto a Francisco, passou a acreditar que o que ele busca também está buscando ele. E que a impotência não passa de uma grande lição de humildade.

Marcadores: , ,