segunda-feira, junho 04, 2007

Cada coisa no seu tempo


O sonho que o alegra está nas mãos de outra pessoa. Portanto, sua realização nada mais é do que um presente embrulhado no destino de alguém. Agora mesmo, Francisco está um pouco triste porque quem está com o seu presente desistiu de seguir em frente. Ela tem os motivos dela, todos sérios, íntegros e compreensíveis. Ele jamais soubera ou sentira que a integridade alheia fosse fonte de tanta fraqueza.

A viagem a Cuba foi cancelada de última hora. Ana abalou o coração comprometido, o ânimo e o afeto não menos íntegros que a sua vontade de ficar. A casa colorida por plantas sadias, adornada por objetos simpáticos sobre móveis antigos feitos de madeira escura. Austeridade e alegria reunidas no lar. Um tesouro delicioso para quem já morou em tantos lugares, se mudou incontáveis vezes, fez, desfez e refez sua vida durante sempre e eternamente até aqui. Taí o principal motivo da desistência: o tesouro da imobilidade desejada.

Já Francisco só quer saber de expandir-se, de se ver alargado, esparramado no meio do mundo. Ele é um mensageiro invocado, que se rasga entre a ternura e o ciúme, que se assanha todo com qualquer ligeireza chamejada pelos monstros de luz que habitam dentro e fora dele. Está descontente com sua rotina partida, com o tempo que tem de dedicar ao que não lhe faz nem bem nem mal. Queria mesmo era ter todo o tempo para derramar-se, feito um líquido humano ou uma avalanche de escândalos. Mas o tempo é uma das forças imponderáveis que a vida tece.

Em um primeiro momento, a carona estava armada. Ana convencida de que seu destino de cigana era o seu traçado básico entre o céu e a terra. E Francisco, que nunca pisou em terra estrangeira, sorvia a dádiva de poder ir para mais longe de sua pátria. E isso significava ir aos bares com cabines especiais para os amantes urgentes, tentar compreender o sabor de um picolé de gelo, suco e barro, o contrabando de carnes, a dupla moral cubana, o privilégio de ver as lascas da regência de um Fidel desaparecido mas ainda vivo. Talvez a última chance, o último suspiro da ilha.

Para Ana, a grande novidade, o grande mistério foi ter a coragem para romper com a natureza inglória de ver suas coisas sempre em caixotes, em malas, resumir a sua vida a pouco mais de trinta quilos. Qualquer excesso na bagagem são cobrados os olhos da cara. E o brilho dos olhos de Ana quando molha as plantas na varanda vale mais e não pesa nada. Quanto a Francisco, passou a acreditar que o que ele busca também está buscando ele. E que a impotência não passa de uma grande lição de humildade.

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14 Comentários:

Às 4:03 AM , Anonymous Erika disse...

Deixar a sua felicidade nas mãos de outro dá é nisso... o outro não cuida da sua felicidade como vc próprio...
O olho do dono é que engorda o boi... felicidade tem que estar nas próprias mãos.

Beijo

 
Às 6:43 AM , Blogger Jane Malaquias disse...

Quando Ana comprou mais uma orquídea em fevereiro ele devia ter desconfiado , mas nem ela desconfiou...

 
Às 6:39 PM , Blogger Duda Bandit disse...

cara, isto parece parte de algo maior... ficaria bacana em uma novela ou romance. abração.

 
Às 8:44 AM , Blogger Guto Melo disse...

Érika, a coisa é mais complexa. Duda, talvez você tenha razão.

 
Às 10:15 AM , Blogger perdidinha... disse...

"O sonho que o alegra está nas mãos de outra pessoa."
acho que o problema está exatamente aí... é aí que os franciscos(as) e perdidas erram feio.rs...
obrigada pela visita.
parabéns pelo que vc escreve!
beijocas.

 
Às 10:18 AM , Blogger Jana disse...

O problema é esse sempre esperamos alguém nos fazer feliz, o dia que aprendermos a buscar a felicidade em nós... metade dos problemas se acabam...

Beijos

 
Às 11:46 AM , Anonymous Claudio disse...

Eu sentiria muito o cancelamento da viagem a Cuba.
Tenho a maior vontade de conhecer a ilha de Fidel. Sierra Maestra, principalmente.
Abração e um ótimo feriado...

 
Às 3:56 PM , Anonymous Clementine disse...

Lindo. Uma crônica. Que terminou em "humildade". Perfeito. Obrigada por me visitar, obrigada mesmo. Beijos, Clementine.

 
Às 4:43 PM , Blogger Mel disse...

Infelizmente temos essa mania de achar que nossa felicidade está em outra pessoa... Essa pessoa bem que poderia ajudar-nos a encontrar a felicidade, mas muitas vezes os caminhos não são os mesmos... Infelizmente.

 
Às 3:51 AM , Anonymous Erika disse...

Guto, sempre é complexo qdo se trata deste músculo involuntário.
Tem hora que não há cérebro que comande as veias aorta e cava.. rsrs

Beijos querido.. ótimo final de semana

 
Às 4:47 AM , Blogger Dati disse...

Acho que todos temos um pouco de Francisco e de Ana. Francisco seria os momentos que achamos que a felicidade está sempre distante de nós e que temos que ficar sempre em busca dela. Estar sendo Francisco seria quando criamos expectativas em cima de outras pessoas e assim fica fácil de nos sentirmos frustrados. Nossa parte de Ana (ou nosso momento Ana) é quando descobrimos que podemos ser felizes com coisas simples e na empolgação desta descoberta nos tornamos, sem perceber, um pouco egoístas e acabamos afastando de nós os Franciscos com suas expectativas.

 
Às 8:02 AM , Anonymous Ruberto disse...

Muitas vezes colocamos a felicidade naqueles ou naquilo que nao podemos controlar.....
Uma vez que nosso musculo involuntario dita nosso ritmo de vida, deveriamos fazer sua vontade sem ao menos nos importar com as consequencias e nos deixar ao menos uma vez.........sermos felizes!!

 
Às 6:44 PM , Blogger Nilza disse...

Nossa..!

Seu texto é bastante intrigante. mas, penso que amor seja sim renúncia e se mesmo antoagônicos se amam, pq não visitar Cuba outra hora? Amor é abdicação é ceder... Porém, jamais se neutralizar.
Amei.

Beijos

 
Às 7:38 AM , Blogger Um mundo novo aos corações corajosos! disse...

E Raimundo também gosta de se esparramar no meio do mundo.


Encantador!

 

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