segunda-feira, maio 21, 2007

O Amor de um ignorante

Associar para se ver mais. Amigar idéias e sentidos corpóreos, estrelar atitudes enviesadas; na vertigem do que o outro traz, na rasteira forma de simpatia.

Quero associar para viver, em pleno e em erro, uma lógica-comunhão fértil. Sempre assim desde pequeno quando todos os botões deslizavam pelo compensado verde que cheirava a talco. Então, estar junto, febre alta, mútua insistência, elo com o que se perde, sementes escuras, medo em lugar de tudo, sonhos secos, árvores que crescem para dentro, cismas que crescem como árvores.

Estar junto dependência, o outro vira uma droga. Estar junto aparência, o outro-espelho se quebra. Estar vivo e sentir vivo o pus das falas inflamadas, o rasgo cirúrgico que nada opera. A ferida sem cor a brilhar como graxa em couro, travestida neste tal de passado – nosso rol de visitas insanas.

E quando se quer apenas passear. Apenas um selo coadjuvante do que se tiver de mais genuíno para dar, mesmo que não seja algo tão bom. Quando se quer apenas, depois da ausência, mínimas presenças, gotas de qualquer sentimento porque saudade também é planta. E o que se tem é um vício, uma aposta que já nasce endividada. O que se tem é o cansaço de insistir na nasalidade que a curta expressão negativa oferece.

Não. É a bandeira colorida do amor. Não. O algo predestinado, fatal e lerdo. Não. A culpa anchieta, a amargura uterina, a muda voz interior. Não. O desastre ecológico na floresta das esperanças franzinas. Sim é o medo e a angústia; a raiva e a estupidez, a estamparia dos gestos inóspitos; a última palavra... a última palavra, sempre a última.

O que posso esperar de alguém que inventa defeitos para mim? Que merda de ameaça é esta que não me tira a vida, não decepa um pedaço do meu corpo, não me arranca a lucidez, e só faz me encher o saco, como a tolice mais torpe e miúda? Espécie de demência? Um jeito de desorientar para reverter a sinceridade dolorosa e voltar a se “igualar” no jogo? Existe jogo?

No tabuleiro da baiana tem... Associar para se ver mais. Estou começando a achar chique a idéia de ser bonito, inteligente e só.

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21 Comentários:

Às 10:32 AM , Blogger Flavio Vaz disse...

Sinto medo, logo, existo.

 
Às 8:29 PM , Anonymous Lidiane disse...

No tabuleiro da baiana tem.
Sempre tem.
Palavra de baiana.
E sabe, o texto merece ser lido de novo.

 
Às 4:03 AM , Anonymous Erika disse...

Eu não quero droga.. eu não quero simbiose.. eu não quero nada disso..
Nem associação to querendo.. eu to querendo mesmo é multiplicar os 2 por vários múltiplos de 2.. até que o mundo se acabe em múltiplos, que nunca têm que se dividir prá dizer que são 1.

Beijossss

 
Às 6:24 AM , Blogger Sobre tudo e nada ao mesmo tempo disse...

Belo texto ! Beijos Paulinha

 
Às 9:57 AM , Blogger *Clara* disse...

"bonito, inteligente e só."

Só de sozinho ou só de somente?!

 
Às 11:49 AM , Anonymous Claudio disse...

Excelente texto. Que como a amiga afirmou, merece ser lido de novo. E de novo...
Abração.

 
Às 1:54 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

"A fadiga de ser amado, de ser amado deveras! A fadiga de sermos o objeto do fardo das emoções alheias!Converter quem quisera ver-se livre, sempre livre, no moço de fretes da responsabilidade de corresponder, da decência de se não afastar"..."Senti que me era dada uma espécie de prêmio destinado a outrem- prêmio,sim, de valia para quem naturalmente o merecesse."
Fernando Pessoa no Livro do Desassossego.

 
Às 3:27 PM , Blogger Lari Nakao disse...

Comovente texto.

 
Às 3:27 PM , Anonymous Ruberto disse...

Sentir medo, aquele friozinho na barriga, aquela sensação de nao estar dominando a situação, e sim a situação que te domina...
Esse jogo é parte da vida, quando realmente aprendemos a nos apaixonar intensamente pela vida....
Abraços

 
Às 7:02 PM , Anonymous manoela disse...

sim, a saudade é planta, por vezes daninha, outras carnívora... outras um ipê florido como esses de brasília. um beijo guto,

 
Às 1:55 AM , Blogger rumblefish74 disse...

Aí, já tem algum livro publicado? Isso é Literatura maiúscula, congrats.

 
Às 9:22 AM , Blogger Guto Melo disse...

Jane Malaquias,

o trecho destacado é bonito, mas muito romântico. E o romantismo não é muito a minha praia, apesar dos deslizes que todos nós, seres humanos, ainda cometemos neste sentido. Afinal, o romantismo nos contamina desde muito antes de Byron.

Em relação à fadiga, Pessoa a situa em quem recebe o amor. A coisa tem duas vias. Está também em quem dá. Um dos traços mais marcantes do romantismo é o individualismo. Ele está centrado em si. A fadiga está nele. Nele só?
Amar desgasta porque é algo que queremos muito e sabemos pouco. Eu acredito assim.

Em relação à conversão, outro aspecto romântico: as pinceladas de utopia. A conversão sugere transformar alguém que tem o desejo de liberdade plena em uma pessoa que vê a correspondência como uma responsabilidade (e responsabilidade pressupõe obrigação). Em suma, o autor parece dizer - "sou obrigado a corresponder quando na verdade queria ser totalmente livre". Esta é a justificativa dele para a fadiga que sente.

Acontece que isso é impossível. E mais uma vez aponta para o rumo de centrar-se em si mesmo, o que para mim é um suicídio. Sim, porque na medida em que você se associa, necessariamente se estabelece um sentido de correspondência. E isso não significa que não haja espaço para a liberdade. Não acredito que,
para ser livre, devemos abrir mão de nos corresponder.

E no final, quando ele fala de prêmio, no fundo ele não reconhece este tipo de relação amorosa como prêmio para ele, embora admita que possa ser para outros.

Para você, que tem ascendente ariano, o texto pode ser perfeito. Para mim, que preciso me associar, este texto é um desastre. Como literatura, independente de como possa ser assimilada, é algo indiscutivelmente belo.

 
Às 1:36 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Meu amado Guto melo,

quando eu tinha 18 anos li O Fio da Navalha de Somerset Maugham onde ele desenvolve a idéia de que no amor tem sempre alguém que ama e outro que se deixa amar.Essa leitura assombrou com seus fantasmas a minha educação sentimental, em todo caso se tivesse que escolher seria sempre o lado do que ama. Existe porém uma outra palavra com a qual dialogo desde a infância e é a solidão. Ela já mostrou tantas caras para mim, detestáveis e desejáveis.Hoje a chamo de amiga, não tenho mais medo dela porque gosto da minha própria companhia e realizo em mim o milagre da matéria que ganhou vida e consciência, com que finalidade não sei, talvez para fundir-se ao todo, amorosamente...

 
Às 3:03 PM , Blogger Guto Melo disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 3:10 PM , Blogger Guto Melo disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 3:11 PM , Blogger Guto Melo disse...

Pois é, esse lance do Maugham parece a teoria da agulha hipodérmica. Alguém injeta, alguém se “envenena”. Eu continuo com as duas vias, com o lá e cá constante. Eu também gosto da minha companhia, embora não realize milagre algum com isso. Agora, quando se chama solidão de amiga, a convivência pode ser a forma mais demente de relação.

 
Às 3:44 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Poderás tu um dia morrer a minha morte, nascer por mim, ocupar o meu lugar no espaço,cagar a minha merda, sonhar o meu sonho? Serás sempre o outro, o fora de mim ?
Por enquanto estás ao meu lado,bemvindo, quase sincrônico, teus pensamentos são um desejado mistério,e o teu desejo um chamado que as vezes escuto, as vezes não.
Não te escuto estando tu a meu lado, não me vês estando eu na tua frente. "Mas se de dia a gente briga, de noite a gente se ama, porque nossas diferenças se acabam no quarto, em cima da cama"...

 
Às 5:10 PM , Blogger Guto Melo disse...

Prefiro uma outra canção, de Caetano - "Você não está entendendo quase nada do que eu digo/ eu quero ir embora/ eu quero dar o fora/ e quero que você venha comigo"

Quanto a cagar a tua merda, já fiz isso muitas vezes.

 
Às 8:11 AM , Blogger €aµ disse...

Deixando um bilhete num pedaço de papel por baixo da porta pra não atrapalhar a conversa:

Texto intenso... questionador, mesmo que feito de afirmações.
Associar... Escravo por vontade?...

Well, bilhete grande demais...

... Bom texto.

 
Às 8:50 AM , Blogger Guto Melo disse...

Não há escravidão. Só vontade.

 
Às 6:52 AM , Blogger Jac C. disse...

Amor, amor, ahhhhhhh esse amor!

 

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