domingo, abril 11, 2010

O elegante adormecido

Toda vez que eu visto um terno e uma gravata para ir ao trabalho, minha mulher diz que estou bonito e elegante. Eu respondo com um sorriso insosso, pois sei que o Congresso Nacional me espera, com sua feiura e má energia. Deputados, conceitualmente, são representantes do povo. No Congresso, não se pode transitar em determinados lugares sem o tal terno e a tal gravata, vestimenta que está longe de nos representar. Nos fins de semana, o interfone toca... Gente pedido um calçado ou aquela peça surrada que está encalhada no guarda-roupa. No Congresso, sinto que estou fora da realidade, e isso me perturba.

O corredor que dá acesso às comissões é repleto de gente sem brilho no olhar, com pose de séria e tiques formais. Toda quarta-feira, dia em que grande parte das comissões delibera, o grande corre-corre simula pressa, já que toda aquela correria geralmente é para retardar a tramitação das proposições, num pedido de vista ou num requerimento para retirada de pauta. Sim, a culpa, como se costuma dizer, não é só dos parlamentares, mas de diversos outros atores que trabalham para o Congresso não andar. Inclusos governo, assessores parlamentares, representantes de agentes de um determinado setor – o lobby e o anti-lobby. Tudo bem, a maioria dos projetos de lei é um porcaria, mas isso essencialmente não é levado em conta, pois no final o lobby acaba vencendo.

Por isso, meus caros, toda quarta-feira é uma quarta feia. Se a reforma ortográfica fez a feiura perder o acento, no Congresso ela continua bem acentuada. E eu lá no meio, de terno e gravata, respirando perfume barato, com um sono que parece uma pedra na alma, como um elegante adormecido.

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sexta-feira, março 12, 2010

Deixa sangrar

O Caetano compôs uma música com esse título, e a Gal a gravou no excelente Legal, seu terceiro disco. A expressão se repete em Como Dois e Dois – “deixo sangrar” - , canção também gravada por Gal Costa, que está, se não me engano, em Fatal - Gal a Todo Vapor (1971). A expressão faz menção a Let It Bleed, dos Stones, que por sua vez é uma resposta irônica à Let It Be (deixa estar), dos Beatles.

Depois de todo este nariz de cera, vamos ao que interessa. Meu Cd, finalmente, está mixado. Agora é partir para o registro das músicas e masterização. Paralelamente, devo fazer uma página no My Space, e trabalhar capa e encarte. É muito trampo e pouco tempo. Portanto, nada de pressa, tudo na sua hora e frevo, rock e samba no laser.

Este foi o motivo por que não postei na semana passada. Estava ouvindo o material exaustivamente. Estava entre deixar sangrar e deixar estar. E estou até agora, com uma inclinação levemente maior pelo primeiro estado.

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sábado, fevereiro 27, 2010

Amém, estupidez!

Toda essa história de BBB só estampa em cadeia nacional o quanto somos indivíduos malditos, incapazes de “sofrer” o outro. São postas em uma vitrine pessoas de egos endurecidos, que passam meses cultivando discórdia como estratégia de vitória. Elas lançam mão de fofocas, intrigas, e tentam emplacar as ofensas mais eficientes. Tudo para o deleite de um espectador, o poderoso iludido que imuniza, condena e decide destinos. Perfeito: vamos dizer que virtudes devem ser jogadas no lixo e que dinheiro deve ser ganho de modo canastrão.

Mas se por um lado o BBB explicita a pobreza humana, por outro oferece uma experiência estética, ainda que de mimese literária. Sim, pois cada candidato ao milhão e meio desenvolve uma narrativa no jogo com o objetivo de se contar para o público. Como artifícios de narrativa, vemos os sofrimentos injustificados, jogos em torno do ato de testemunhar, simulacro de resistência e superação, ódios contidos, euforias programadas e mais um arsenal de truques e manhas. O diferencial na escrita poucos conseguem: o faro para captar centelhas que possam iluminar a trajetória dentro do programa. A Angélica mesmo saiu porque foi ruim de olfato.

Ao que tudo indica, o Dourado vai levar o prêmio desta edição. Não sei por que cargas d’água milhões de brasileiros vão acabar fazendo de um estúpido, um milionário. Não entendo muito bem essa escolha por premiar a afirmação de idéias retrógradas, o autoritarismo, a falta de tolerância... Dourado pede respeito, mas não dá. No fundo, ele quer reverência. Seus súditos são milhões de tolos assumidos.

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segunda-feira, setembro 15, 2008

Os vigias perdem tempo


Virtudes existem para trazer alegria. Daí que ser livre é o ponto central de uma alma arqueada de orelha a orelha, além de dar fôlego para o trajeto abarrotado de dias em que o sol está escondido atrás do olhar vigilante de alguém. Sim, é preciso muito preparo para seguir desviando dos vigias, daqueles que não suportam a alegria alheia.

Esse tipo de olhar é praticamente uma conduta social. É como se houvesse um acordo tácito no sentido de construir um território de mesquinharia em cada um onde possam se assentar as ocupações do outro, sejam estas banais ou não. É uma miséria este olhar para fora que desconsidera a beleza singular, sempre surpreendente por ser única. Em lugar disso, a observação como um bastão do controle, passado de mão em mão, em um revezamento de muitos por muitos.

Bem, o melhor é estar por cima, abraçado com os virtuoses do júbilo, gente lépida, serelepe. E se tiver que matar, o melhor inseticida para os vigias é o desprezo.

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sábado, setembro 06, 2008

Um novo conceito de costas

Os discos intervertebrais são estruturas que me lembram sempre a mesma incompetência para a paciência. Eles são os meus bandidos mais orgânicos e os guardadores de tensões mais fiéis. E também constituem-se em nervos pensantes, sábios inventores de um novo conceito de costas.

- Costas são o miolo da dor, mesmo quando o problema é no estômago.

Ah, meus malditos discos! Na lombar eu já os tenho mortos. Se pelo menos não houvesse a insistência em encurtar meus músculos... Sinto a teimosia em camadas, pelo fio do que em mim é denominado espinha dorsal.

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terça-feira, julho 22, 2008

Piratas para sempre


Como não poderia deixar de ser, a internet também é campo para o bom e velho ersatz, que alguns, inclusive a Justiça, preferem chamar de falsificação. Neste mês, por exemplo, o site de leilões eBay foi condenado por um tribunal francês a indenizar a Louis Vuitton em 40 milhões de euros (cerca de R$ 100 milhões). Motivo: a realização de leilões on line de produtos falsificados da Vuitton e venda sem autorização de produtos legítimos.

Mas a pirataria é antiga, Vuitton. Piratas, sozinhos ou em grupos, cruzavam os mares desde o século VIII a.C para sacar navios, assaltar povoados e, dessa forma, tornavam-se ricos e poderosos. Homero, em sua Odisséia, lançou o termo, que hoje serve para designar qualquer CD ou DVD que se copie em casa. A lógica continua a mesma, já que informação ou status são signos de poder. Os piratas modernos interceptam determinadas rotas para se enriquecer culturalmente, erguer uma bandeira de sofisticação ou realizar qualquer feito que dignifique o delito a serviço do acesso. Afinal, o acesso é constantemente dificultado, ou mesmo negado, pelos grandes patrões. Eles detêm a tecnologia de produção e distribuição; os piratas, além da tecnologia, possuem a manha de permanecer ocultos.


No mais, há uma canalhice que precisa ser dita: a indústria falsifica a si própria. Produtos sintéticos vendidos como se fossem de couro... Semana passada, comprei um super-bonder para colar um chaveiro que não passou uma semana colado, e por aí vai. Nós piratas somos mais honestos e, enquanto a Justiça multa, a História prevalece.


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quinta-feira, abril 03, 2008

Uma boa surra kigô não dá

Sim, a vida caçoa. Não posso acreditar que tanta falta de senso do ridículo passaria assim incólume. Mais uma vez paralisias se insinuam, os dedos ficam lentos, os neurônios mordidos.


Hoje fiz uns haicais no estilo tradicional, esquema 5-7-5, sem título, sem rima e com kigô. Apresentei-os à minha amada, que disse não ter visto o achado poético. O que conta é a cena, a poesia está na coisa em si - retruquei. Sem graça, ou talvez nós sejamos farelos do oriente.

Bem, eu sempre gostei das imagens que pulam, dos símbolos travessos, da união safada entre as palavras, deste êxtase que vem da ausência de compromisso em dizer (perdoe-me, Graciliano!). Há nisso uma atitude barroca, esculachada, um quê excitante. Palavras que se lambem e se querem ardentemente. E quando elas me pegam do seu modo todo violento – xingam, cospem, batem na minha cara... Aí é que eu gosto. Aí é que eu gosto mesmo!


E os haicais? Ou os jogo fora ou arrumo um jeito de ganhar dinheiro com eles. Porque surra mesmo, que é o que eu ando precisando, kigô nenhum vai me dar não.

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quarta-feira, março 19, 2008

Sonhar não custa nada

Não é a raiva o motor, nem a indiferença. O pior mesmo é querer sentir pena e não conseguir. Talvez não, talvez seja bom fracassar no desejo por um sentimento pobre. Uma bruma de afeto por esta menina da bunda grande que se veste igual a uma tia covarde. Ela e a sua cara de manifesto mau gosto, que sequer sabe de onde vem – obviamente, aquilo só existe na sua expressão tonta a antecipar rugas como se o tempo fosse mentiroso. Sua cara é lisa e por mais que seja lisa é enrugada.

O que sentir por alguém tão interessantemente desinteressante? Quisera ter uma cama ao lado para, em meio ao calor do descanso, sonhar com alguma resposta desumana.

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quarta-feira, dezembro 19, 2007

O caos e a ternura

Cuidado com este móvel! Onde estão as minhas meias? Entre uma e outra coisa fora de ordem... Sim, eu preciso das chaves para poder entrar em casa. A descarga... A descarga não está funcionando. Começa vazando, depois joga água para todo lado. Há um disjuntor desnutrido, ou bastante eficiente, bem ali – não suporta a amperagem do chuveiro em nenhum momento. Se o banho for um pouco mais quente... Ploc, ele desarma feito um dispositivo covarde.

Lugar de trilho de cortina não é no chão da área de serviço. Agora, agora temos mais espaço! Janelas imensas, ipê em frente. Coisa mais encantadora abrir o olho e dar de cara com esta árvore tão bela. Seus galhos parecem já ter resistido a tanta chuva de dezembro... Aliás, seja qual for o clima, o ipê está ali para anunciar o júbilo de sobreviver silenciosamente.

A síndica sumiu, a planta hidráulica do prédio, meu Deus! Só falta agora furar a parede para instalar um armário e estourar um cano. A parede da cozinha dá para o banheiro, esqueceu? Mas aqui é bem melhor que o outro. Lá escutávamos tudo – escarros, gemidos, gente lançando suas fezes no mundo. A vizinha sempre reclamava do som alto, mesmo quando o volume estava baixo. Isolamento acústico de merda!

Aqui é tão bom que até se esquece da ausência de elevador. Três andares de escada, meus joelhos chiam um pouco. Dura três meses no máximo. Rapidinho as coxas estarão fortes e o joelho protegido. Eita, não havia reparado esta tomada quebrada. Queria tanto passar roupa escutando música! Onde colocar a estante menor, a cama de hóspedes? Tanto espaço, tanto drama.

Soltou mais um taco, você viu? Faz o seguinte: abre a janela, deixa o ipê sorrir pra gente!

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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Brincando com os provérbios - parte 2

Para quem sabe ler, a vida é mais complicada

Para o bom entendedor nenhuma palavra basta

Há males que vêm para ficar

Há remédio para tudo, menos para a morte e a preguiça

Pensando morreu um sujeito que amava a política

As fezes são as mesmas, mas as moscas não entendem assim

Azar no jogo, sofrimento na vida

Ladrão que rouba ladrão é ladrão também

O que os olhos não vêem, o coração avisa

Quando a esmola é muita, o santo agradece

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terça-feira, dezembro 11, 2007

Brincando com os provérbios

Devagar se vai apreciando a paisagem

Quem com ferro fere machuca à beça

Vingança é um prato que se come apimentado

Quem ri por último não tem medo da solidão

Recordar é viver apanhando

Roupa suja se lava com as mãos

Pimenta no cu dos outros é uma peça de Nelson Rodrigues

Briga de marido e mulher ninguém sabe ao certo o que é

Dinheiro e felicidade são duas dores de papel

À noite todos os gatos são estrelas com unhas

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quinta-feira, dezembro 06, 2007

O diário dos homens obsoletos – parte 4


Mais uma vez brigaram pelo mesmo motivo tolo de sempre: o dinheiro curto. Ele reclamava do peso em suas costas, talvez por ter costas frágeis. Ela arrotava um resquício de fidalguia, de uma nobreza bizarra, ao se dizer herdeira. Declamava, com certo orgulho, o seu privilégio: não ter de se submeter à lógica imperialista dos dindindons.

No dia seguinte, foi buscá-lo no trabalho, no horário do almoço, com um saquinho de acerolas. É para você – ela ofertou. Estavam vermelhas, bonitas, plenas de viço. Mas ele, que sempre adorou a fruta, comportou-se como se nunca tivesse gostado de acerolas. Mudou logo de assunto, colocou o saco no banco traseiro do carro, aquelas frutas não diziam nada a respeito do seu amor.

Ao voltar para casa, mais uma vez ela veio com as frutinhas, desta vez em uma vasilha. Se quiser fazer um suco... As frutas, juntinhas e alegres, pareciam uma carne morta.

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terça-feira, julho 17, 2007

Com quantos fios se faz um ambiente?

Estou no centro da sala. Na minha frente uma bela imagem se derrete em uma tela de fusões e cores. São os olhares dos outros, estampados para mim, em alta definição e vibrando acordes em um sistema de som integrado. Filmes que minha amada fez, mas ainda não viu.

Saio do centro e vou para o canto. Lá, o som goteja suor em lá maior. A imagem reflete em diagonal para que eu possa namorá-la de outro ângulo. O passarinho canta e eu escuto até as sombras de seu canto. Todos os entulhos fora. A arte está ali e eu nem preciso de pipoca. Nem de refrigerantes. A mim basta o mundo que vejo da barriga de um cubo.

No chão da sala e nas paredes, fios e mais fios. Conexões entre o receptor e as várias caixas que vão dar nele. E cabos e antenas e fitas e pregos e prendedores. Trabalheira que resulta em caos e brilho. Para onde quer que eu aponte o meu olho, estará diante de mim algo atravessando algo. Seja fecho, fio na parede ou riscos do mau acabamento do móvel novo.

Móvel novo que está servindo para muita coisa. Nele, guardo os aparelhos e instrumentos possuidores do power que aciona o meu mundo mágico e das páginas impressas do tipo de calor que mais me interessa. E ainda tem a elegância de guardar tudo sem ocupar muito espaço. Lindo e low profile.

No dia em que deixarem de inventar as coisas, eu me mudo para Júpiter. Vou viver numa imensa bola de gás e morrer de frio.

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segunda-feira, maio 21, 2007

O Amor de um ignorante

Associar para se ver mais. Amigar idéias e sentidos corpóreos, estrelar atitudes enviesadas; na vertigem do que o outro traz, na rasteira forma de simpatia.

Quero associar para viver, em pleno e em erro, uma lógica-comunhão fértil. Sempre assim desde pequeno quando todos os botões deslizavam pelo compensado verde que cheirava a talco. Então, estar junto, febre alta, mútua insistência, elo com o que se perde, sementes escuras, medo em lugar de tudo, sonhos secos, árvores que crescem para dentro, cismas que crescem como árvores.

Estar junto dependência, o outro vira uma droga. Estar junto aparência, o outro-espelho se quebra. Estar vivo e sentir vivo o pus das falas inflamadas, o rasgo cirúrgico que nada opera. A ferida sem cor a brilhar como graxa em couro, travestida neste tal de passado – nosso rol de visitas insanas.

E quando se quer apenas passear. Apenas um selo coadjuvante do que se tiver de mais genuíno para dar, mesmo que não seja algo tão bom. Quando se quer apenas, depois da ausência, mínimas presenças, gotas de qualquer sentimento porque saudade também é planta. E o que se tem é um vício, uma aposta que já nasce endividada. O que se tem é o cansaço de insistir na nasalidade que a curta expressão negativa oferece.

Não. É a bandeira colorida do amor. Não. O algo predestinado, fatal e lerdo. Não. A culpa anchieta, a amargura uterina, a muda voz interior. Não. O desastre ecológico na floresta das esperanças franzinas. Sim é o medo e a angústia; a raiva e a estupidez, a estamparia dos gestos inóspitos; a última palavra... a última palavra, sempre a última.

O que posso esperar de alguém que inventa defeitos para mim? Que merda de ameaça é esta que não me tira a vida, não decepa um pedaço do meu corpo, não me arranca a lucidez, e só faz me encher o saco, como a tolice mais torpe e miúda? Espécie de demência? Um jeito de desorientar para reverter a sinceridade dolorosa e voltar a se “igualar” no jogo? Existe jogo?

No tabuleiro da baiana tem... Associar para se ver mais. Estou começando a achar chique a idéia de ser bonito, inteligente e só.

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domingo, abril 22, 2007

Foi mais ou menos assim

Mandou buscar a morena lá de Cuiabá. Tinha visto por foto e por foto mesmo ficou de pau duro. Então, mandou buscar. Ela chegou sem nem saber para o que era. Entrou numa sala cheia de objetos estranhos, que não faziam parte de seu universo de retalhos de barro. Ao fundo, o sujeito do comércio a esperava. Fez com o dedo chamando. Ela tímida ia entrando cada vez mais, pisando leve e curiosa. O sujeito do comércio lhe pediu para dançar. Ela aceitou. Dançou mas só fez dança porque sabia pisar e marcar o chão. Dali pra frente foi só corpo e tangência. Os dois se amaram assim: entre o mistério, a loucura e a carne.

Depois foi dia-a-dia. Sexo rotina. Dois, três, quatro meses e o sujeito do comércio enjoou. Mandou voltar como mandou buscar. A morena não entendia, só obedecia. E voltou. Seus retalhos passaram a ser arredios e no peito nasceu a saudade pelos objetos daquela sala, que nem foram deixados por ela, mas a moça aprendeu a admirar. As flores sorriam, os sonhos murchavam antes das flores. Acabou, acabou o que nem ela compreendia ter havido. Haver? É verbo que não se move na terceira pessoa.

O sujeito do comércio ciscou. Ciscou, ciscou, ciscou e não encontrou nada que o deixasse satisfeito. Então mandou buscar de novo. E veio a morena. Passagem paga. De Cuiabá para Rocha Miranda. Mas desta vez veio preparada. Não se cuidou e veio a filha. O sujeito do comércio disse não, não é minha. Mandou a morena de volta, barriguda e triste.

A morena não processou, não fez quizumba nem arruaça. Mandou fotos da menina pelo celular. O sujeito ouvia dos amigos conselhos para o bem e para o mal. Alguém disse: vai lá, faz exame de DNA. Conforme for o resultado você reconhece. Não. Não é meu, não é meu, não é meu! Nada de fazer exame de porra nenhuma!

Outras fotos foram chegando e cada vez que ele via a menina pelo celular o coração ia amolecendo. Decidiu viajar, não para fazer teste de DNA, mas para olhar a cara da pirralha. Estava firme: se tivesse a fisionomia parecida com a sua assumiria; se não, abandono e nunca mais.

Pousou em Cuiabá. Viu a morena, ressabiada e desejosa. Viu a pequena no colo sorridente e babando. Reparou bem que a orelha era igual - de não se tirar nem pôr - a dele. Neste momento reconheceu: é minha! E passou a pagar pensão.

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sábado, fevereiro 10, 2007

Carnaval do Mal

Pois é, decidi passar o carnaval aqui mesmo em Brasília. E tem carnaval na capital? Se formos pensar em política, tem o ano todo. Mas o que quero mesmo é samba ou, se samba não houver, música qualquer para alegrar meu esqueleto. Como sou um garoto de fé, sempre penso que alguma coisa deva haver. De bacana. Dificilmente penso errado.

Descobri um lance chamado Carnaval do Mal, uma festa que rola em Brasília e que está em sua 6º edição. Este ano ela vai acontecer aqui na Asa Norte, pertinho de casa. Ai chuchu! Pelo menos na segunda, dia em que a esbórnia vai rolar, eu vou ter com o que me aquecer. Parece que lá tudo é barato, bonito e gostoso. A entrada custa cinco até a meia-noite. Para dar um toque especial, a garota-anarcopinga oferece gratuitamente a tal da anarcopinga – a marvada, o kitut. Já fiquei sabendo que a parada é para derrubar os vivos e levantar os mortos

A prévia também está fluindo. Hoje mesmo tem encontro de blocos na 302 Norte. Faltam os outros três dias. Mas na segunda... Na segunda é certo. Carnaval do Mal - In Vino Veritas, In Cachaça Carai.

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terça-feira, janeiro 30, 2007

Mas e Eu?

Climas de despedida nunca são confortáveis, ainda que o aceno ensaiado já fosse um tanto esperado. A sala está sendo desmontada para uma outra ocupação, sabe-se lá qual. Os homens lá fora quebram o piso como coadjuvantes não alertados de uma telenovela cheia de troças e secretas observações. Tum, tum, traaaaac!!! O que se ouve é a trilha sonora do desmoronamento. Parece até que há uma dívida não quitada e a zoeira vem meter na sepultura todas as lembranças de pagamento. Acabou, é hora de partir. E se as pessoas naquela sala conhecessem o Crocodilo, veriam o trator que vi, a parede desabada que vi e a falência levantando da cama com cara de susto.

O mais degradante são aqueles plásticos pretos, que supostamente existem para proteger computadores e móveis da goteira. Eles cobrem as máquinas e a madeira. Eles são o estandarte da morte de toda operação. A diretoria decidiu e ponto. Não tem nada que vir diretor explicar o que a gente já sabe e depois, com cara de leso, perguntar se alguém tem alguma coisa a dizer. Ele não viu os plásticos nem o terraço lá fora, onde o quebra-quebra acontece. Pra onde eu vou? - cada um de nós questionava pra dentro. Trabalhar com fulano eu não quero; com ciclano eu já sei como é. Para alguns o destino aguardado é a rua. Ninguém oficialmente diz nada.

A última reunião, como todas as que houve, foi um palco de martírios. “Olha, eu queria te dizer o quanto aprendi com você e o quanto você me fez crescer...” “Mas você... você tem muito potencial. Aonde quer que vá tem futuro...” “Loirinha, meu anjo. Eu era como você, a mesma irreverência, a mesma alegria. Vê se lá na frente não se torna este traste falante, viu?...” “Hei, você, menino que escreve... você é um mistério para mim, me atrai, mas... não sei dizer... você é assim... amorfo...”

Uns inquietos, outros atentos, ouvíamos as considerações finais da comandante degenerada, que aproveitava as sobras de sua autoridade para tentar convencer a todos de sua excelente perspicácia. No final, após duas horas e meia de uma surra de conversa, ela ainda queria mais assunto: Mas e eu? Vocês me amam? Amamos, amamos muito, amamos demais! Impossível ser dada outra resposta.

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domingo, janeiro 28, 2007

Um Trago na Dúvida

Ando sentindo dores. Há anos é assim. São dores de estômago, intestino, de digestão. Às vezes minto, digo a mim mesmo que não tenho dor alguma. E às vezes acho que essa coisa alguma é livramento. Será isto mesmo? A mentira é nossa doce salvação? Tem dias que até um copo d’água me ofende. Em outros, como porco e parece que o que comi foram folhas de alface. Se fosse grave, já teria sido arruinado, pois o tempo não suaviza nestas horas. Então, o que existe de fato são insultos, afrontas e mais nada.

Convicto do meu estímulo e da minha imagem, puxo um cigarro da carteira e acendo-o. Cada cigarro que fumo é um voto de confiança em Deus. Fumo pouco, para não confiar demais. Não é por descrença. Mas sim para poder continuar desconhecendo-o e mantê-lo mistério em minha vida. Houve um tempo de eu não acreditar mais e as dores eram mais fortes. Castigo não era. Havia sim, no meu abandono, uma forma lancinante de carinho. Fumava horrores – excesso de confiança. E nesse abuso morava a minha fé abalada, fruto de uma intimidade forçada e da rispidez do impulso, já que só consigo ver Deus como ente secreto.

Nesse tempo, trabalhar era o meu calcanhar de Aquiles. Mergulhado em um rio de dúvidas, eu não tinha tempo para lavrar. Perdia horas sofrendo com as travessuras de minhas metas inatingíveis; outras horas intermináveis em querer e não querer tudo o que para mim estava feito – sim, estava lá, à minha espera, de olhos vivos e brandos e tudo o que eu conseguia fazer era não suportar. Vez por outra me punha a sentir raiva daqueles que irradiavam a sua sobranceria, das pessoas opacas que por ignorância não sabiam reconhecer esplendores.

Mas por bem, mesmo em momentos de estúpida fragilidade, se é capaz de alimentar máximas defensoras com aquilo que resta de ileso. E que tudo passa, passa. E sempre passará. Os dias teimosos insistem em negar; o princípio livre dá o sopapo que os dias merecem. Hoje as dores de digestão que sinto são trôpegas. São como visitas de saudade. Afinal, dentro de mim a fervura as atrai. Eu é que não caio mais nessa.

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domingo, janeiro 14, 2007

Do Excesso e da Falta de Luminosidade

O dia começa com os mesmos traços do marasmo. Em um canto, um rosto deformado pelos antidepressivos; em outro uma vaidade míope que se recusa a usar óculos. Ao centro, um sujeito com idade um pouco avançada que insiste em fazer piadinha de tudo e divertir pessoas que ele jura não suportar.

Todos conversam. Soltam suas pelancas e risos miúdos. Mantêm a pose de bons amigos. Afinal, estão em um barco com motor chumbado e comandante flácido. À deriva, precisam fingir o tempero inexistente e transformar frustrações na acetona que fará bem às suas tintas.

Ao longe, dois rapazes observam: um é surdo e o outro não. O primeiro está salvo pela própria deficiência; o segundo parece inquieto e anota alguma coisa em um pedaço de papel. Seria uma bela fotografia, se não estivesse sobreexposta.

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O Lado Bom do Escuro

São eles. Os andaimes voltaram. Depois da reforma da fachada do prédio onde moro, que durou incontáveis furos de britadeira e intermináveis visões de um véu verde sobre o ferro montado, eles estão de volta e em frente à janela do quarto onde surro o teclado. Eles são feios, grossos e me dão a impressão de que a qualquer momento irão invadir o apartamento e tomar conta de tudo. Não me deixarão circular pelos aposentos, não permitirão ao menos aquela sesta que costumo dar após o almoço, sobremesa e descanso para o corpo.

Talvez me expulsem. Esses andaimes lesam o que vejo do céu, se colocam entre mim e qualquer coisa. Imponentes e desnecessários, seguem com a missão de atrapalhar, de pôr terra e cimento em minhas delícias, no gosto que tenho em observar amplitudes, em ver o mundo se abrir. Ontem eu evitei a janela para não cruzar com o dito cujo. Hoje, mais desencanado, o encarei, mas confesso que a vontade de desmontá-lo ainda não passou.

Para completar, a lâmpada do quarto queimou na madrugada de ontem. Fiquei escrevendo no escuro. Ruim para a vista quando olhava para o computador. Bom para a vista quando olhava para os andaimes.

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