terça-feira, janeiro 30, 2007

Mas e Eu?

Climas de despedida nunca são confortáveis, ainda que o aceno ensaiado já fosse um tanto esperado. A sala está sendo desmontada para uma outra ocupação, sabe-se lá qual. Os homens lá fora quebram o piso como coadjuvantes não alertados de uma telenovela cheia de troças e secretas observações. Tum, tum, traaaaac!!! O que se ouve é a trilha sonora do desmoronamento. Parece até que há uma dívida não quitada e a zoeira vem meter na sepultura todas as lembranças de pagamento. Acabou, é hora de partir. E se as pessoas naquela sala conhecessem o Crocodilo, veriam o trator que vi, a parede desabada que vi e a falência levantando da cama com cara de susto.

O mais degradante são aqueles plásticos pretos, que supostamente existem para proteger computadores e móveis da goteira. Eles cobrem as máquinas e a madeira. Eles são o estandarte da morte de toda operação. A diretoria decidiu e ponto. Não tem nada que vir diretor explicar o que a gente já sabe e depois, com cara de leso, perguntar se alguém tem alguma coisa a dizer. Ele não viu os plásticos nem o terraço lá fora, onde o quebra-quebra acontece. Pra onde eu vou? - cada um de nós questionava pra dentro. Trabalhar com fulano eu não quero; com ciclano eu já sei como é. Para alguns o destino aguardado é a rua. Ninguém oficialmente diz nada.

A última reunião, como todas as que houve, foi um palco de martírios. “Olha, eu queria te dizer o quanto aprendi com você e o quanto você me fez crescer...” “Mas você... você tem muito potencial. Aonde quer que vá tem futuro...” “Loirinha, meu anjo. Eu era como você, a mesma irreverência, a mesma alegria. Vê se lá na frente não se torna este traste falante, viu?...” “Hei, você, menino que escreve... você é um mistério para mim, me atrai, mas... não sei dizer... você é assim... amorfo...”

Uns inquietos, outros atentos, ouvíamos as considerações finais da comandante degenerada, que aproveitava as sobras de sua autoridade para tentar convencer a todos de sua excelente perspicácia. No final, após duas horas e meia de uma surra de conversa, ela ainda queria mais assunto: Mas e eu? Vocês me amam? Amamos, amamos muito, amamos demais! Impossível ser dada outra resposta.

Marcadores: , ,

10 Comentários:

Às 5:11 AM , Blogger Uma mulher disse...

Nossa, adorei esse texto, simplesmente perfeito e cheio de mistérios!!
bjos

 
Às 5:11 AM , Blogger Uma mulher disse...

Nossa, adorei esse texto, simplesmente perfeito e cheio de mistérios!!
bjos

 
Às 11:29 AM , Blogger Tuka disse...

Te juro que tinha escrito um comentário cheio de consistência quando essa merda de blogger pifou. Uma pena. Lá se foram meus dois minutos de sabedoria que me são permitidos por dia - rs...

Beijos!

 
Às 12:13 PM , Anonymous manoela afonso disse...

hmm, ambientes de trabalho me deixam nervosa... as pessoas são estranhamente... máquinas! máquinas de dizer, máquinas de fazer, máquinas de olhar e avaliar e bisbilhotar e de aposentar... bjinho!

 
Às 8:09 PM , Blogger Aquarela disse...

Lamentar... é humano!
mas ser feliz é escolha! onde vc estava qdo tudo isso aconteceu?

 
Às 4:22 AM , Blogger Guto Melo disse...

Eu estava dando um grande passeio.

 
Às 2:25 PM , Anonymous princesa disse...

Vim conhecer, mas voltarei com mais tempo para apreciar melhor. Abs

 
Às 3:46 AM , Blogger Leila Silva disse...

Olá,
Então vc também já teve uma beagle. Obrigada pelo comentário.
É, despedidas...retratou lindamente.
abraços

 
Às 4:31 AM , Blogger Let disse...

Incrível como eu alguns momentos de nossa vida, nos deparamos com a pseudo-realidade de que todos se amam!

 
Às 3:29 PM , Anonymous Anônimo disse...

Legal

 

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial