O silêncio e a navalha

Deda dava as boas do marido, que respondia bem ao tratamento contra o alcoolismo. Três meses sem uma gota, nem parecia verdade. Falava enquanto metia a tesoura no cabelo de Chicória, a única para a qual olhavam com certo estranhamento. Ela havia deixado o seu homem, tão cobiçado por todas, tão elogiado pela fineza e educação. Carlinhos, além de sempre sorridente e amável, era cheiroso, fazia as unhas, passava creme para hidratar a pele seca. Quem seria louca de deixar uma raridade dessas?
Chicória. Não só o deixou como o sepultou. Para todas que se aproximavam, querendo bulir em seu íntimo, dava a mesma resposta: o silêncio. Ninguém conseguia arrancar uma mínima confissão. Seguia a conversa animada, vez em quando um rabo de olho para Chicória, indagativo, perscrutador. Deda caprichava no visual da mulher que um pio não dava.
Um estrondo se ouviu na porta. O marido de Deda havia tido uma recaída e gritava pelo dinheiro da mulher. Deda dizia não dou e levava um bofetão no rosto em resposta. A essa altura, todas já tinham se picado dali. O homem insistia, gritava e batia até que a palavra dinheiro foi interrompida pela navalha que atravessou a sua jugular. Podemos voltar ao ponto onde paramos? – perguntava Chicória, segurando o instrumento que sacara do assoalho.
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