domingo, abril 11, 2010

O elegante adormecido

Toda vez que eu visto um terno e uma gravata para ir ao trabalho, minha mulher diz que estou bonito e elegante. Eu respondo com um sorriso insosso, pois sei que o Congresso Nacional me espera, com sua feiura e má energia. Deputados, conceitualmente, são representantes do povo. No Congresso, não se pode transitar em determinados lugares sem o tal terno e a tal gravata, vestimenta que está longe de nos representar. Nos fins de semana, o interfone toca... Gente pedido um calçado ou aquela peça surrada que está encalhada no guarda-roupa. No Congresso, sinto que estou fora da realidade, e isso me perturba.

O corredor que dá acesso às comissões é repleto de gente sem brilho no olhar, com pose de séria e tiques formais. Toda quarta-feira, dia em que grande parte das comissões delibera, o grande corre-corre simula pressa, já que toda aquela correria geralmente é para retardar a tramitação das proposições, num pedido de vista ou num requerimento para retirada de pauta. Sim, a culpa, como se costuma dizer, não é só dos parlamentares, mas de diversos outros atores que trabalham para o Congresso não andar. Inclusos governo, assessores parlamentares, representantes de agentes de um determinado setor – o lobby e o anti-lobby. Tudo bem, a maioria dos projetos de lei é um porcaria, mas isso essencialmente não é levado em conta, pois no final o lobby acaba vencendo.

Por isso, meus caros, toda quarta-feira é uma quarta feia. Se a reforma ortográfica fez a feiura perder o acento, no Congresso ela continua bem acentuada. E eu lá no meio, de terno e gravata, respirando perfume barato, com um sono que parece uma pedra na alma, como um elegante adormecido.

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sábado, fevereiro 27, 2010

Amém, estupidez!

Toda essa história de BBB só estampa em cadeia nacional o quanto somos indivíduos malditos, incapazes de “sofrer” o outro. São postas em uma vitrine pessoas de egos endurecidos, que passam meses cultivando discórdia como estratégia de vitória. Elas lançam mão de fofocas, intrigas, e tentam emplacar as ofensas mais eficientes. Tudo para o deleite de um espectador, o poderoso iludido que imuniza, condena e decide destinos. Perfeito: vamos dizer que virtudes devem ser jogadas no lixo e que dinheiro deve ser ganho de modo canastrão.

Mas se por um lado o BBB explicita a pobreza humana, por outro oferece uma experiência estética, ainda que de mimese literária. Sim, pois cada candidato ao milhão e meio desenvolve uma narrativa no jogo com o objetivo de se contar para o público. Como artifícios de narrativa, vemos os sofrimentos injustificados, jogos em torno do ato de testemunhar, simulacro de resistência e superação, ódios contidos, euforias programadas e mais um arsenal de truques e manhas. O diferencial na escrita poucos conseguem: o faro para captar centelhas que possam iluminar a trajetória dentro do programa. A Angélica mesmo saiu porque foi ruim de olfato.

Ao que tudo indica, o Dourado vai levar o prêmio desta edição. Não sei por que cargas d’água milhões de brasileiros vão acabar fazendo de um estúpido, um milionário. Não entendo muito bem essa escolha por premiar a afirmação de idéias retrógradas, o autoritarismo, a falta de tolerância... Dourado pede respeito, mas não dá. No fundo, ele quer reverência. Seus súditos são milhões de tolos assumidos.

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quarta-feira, setembro 16, 2009

Brisas e foguetes – parte 1



Foi um tanto doloroso constatar que para ser livre deveria permanecer confinado em seus próprios pensamentos. Tudo que pede ação, em algum nível exige submissão. E obviamente a ação é mais corpulenta quando manifestada pelos que têm poder. Sim, melhor ficar imerso em seu mar de ideias, todas suas, impenetráveis, devidamente protegidas... o ar... o fôlego...

Às vezes tenciona desaparecer, transformar-se em algo impalpável, não ser minimamente reconhecível, daí nada de fotos, filmagens, qualquer registro. Pensa em ir para o interior, morrer cedo, em meio ao cheiro de cocô de boi, fazendo o chá de uma erva venenosa sem saber. Ser anônimo falsamente integrado a outros anônimos, esquecer que a vida impõe aparição.

Dia desses viu pai e mãe e se perguntou: como pude vir da união de dois seres tão anômalos de mim? Ou pela lógica, seria eu o aberrante, por ter vindo depois? Mas o fato é que a genética deve ser uma maldita farsa, não é possível. Olhava para o pai e não compreendia bulhufas das incessantes tentativas em afirmar categoricamente as vezes de sua categórica ignorância. O ignorante que se sente superior é o fim da picada. Já a mãe tem o coração imenso, uma loucura admirável, uma bondade à flor da pele. Por outro lado, uma sentimentalidade crônica, que para tudo ergue um melodrama. Oferece cansaço tão genuinamente quanto as suas virtudes.

O menino do espírito magro (vou chamá-lo assim daqui por diante) reconhece a sua natureza ativa, medonha, o gosto por associar-se. Mas ultimamente vem cedendo, na dúvida se é sofrimento ou desapego, ao insulamento, por descrer no calor emanado pelas ilusões cotidianas. Não acredita mais valer a pena a entrega, a paixão, os acordes que executa em seus instrumentos. Vem achando tudo um grande engano e uma grande chatice. Não consegue ter ódio, consequentemente não consegue ser sórdido. Tampouco alcança o grito que se perdeu dentro de si. Talvez um grito trouxesse nova libertação; talvez não, só um abismo mais profundo.

Já pensou que muito sexo, todos os dias e com pessoas distintas, o salvaria da inércia. Foder, foder, foder! poderia ser o seu grito de guerra! Mas que guerra, e contra quem? Apaga a ideia. Ela volta. Apaga mais uma vez. Nova insistência. E neste vaivém, pensa que um dia a gangorra pode pender mais para um lado. Poderá tanto ser um monge, quanto um maníaco. Poderá viver quantos tipos de prisão quiser, afinal ainda há muito tempo.

Tempo. Esta palavra lhe traz arrepios. Embora esteja meio enjoado da vida e prestes a perder a sua capacidade de encantar-se, uma de suas maiores alegrias no momento é descobrir, a cada dia, que não está tão doente quanto pensava. Seu corpo ainda responde bem às pílulas de positividade ingeridas. Por exemplo, não perdeu completamente a espontaneidade do sorriso. E quando este vem, vem aberto, sonoro, unindo as orelhas. No entanto, cogita seriamente em parar de sorrir por um tempo, para não participar a sua pureza a quem vive soterrando seus intuitos de aproximação. De antemão sabe que só poderá ter êxito fingindo. E a partir de agora, será feito isso – passará a fingir tudo o que for possível.

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quinta-feira, agosto 27, 2009

São tantos e nenhum

Vinícius (o de Moraes) certa vez disse que, embora não se considerasse um ser deprimente, tinha na tristeza um combustível para a criação. Este mesmo homem afirmou que Marilyn Monroe foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos.

Lygia Fagundes Telles não admitiu ser pessimista, pois este é um mal-humorado. Dá graças a Deus por saber rir de si mesma. Isso não costuma acontecer por aqui, na capital. E a ausência desse riso de si, tão sábio e revelador, leva as pessoas a se esgotarem rapidamente. Sim, sou mais das pessoas do que dos lugares, mas via de regra as pessoas mimetizam os lugares. Então, dá na mesma. Quero ser amado em Ipanema, agora, agora. Salve-me Millôr com sua pílula antialérgica.

Jacques Klein, brincando de ser ou não ser, cogitou ser escritor, caso não tivesse sido pianista. Nunca o vi tocar, nem em vídeo. Eu tinha recém-completados oito anos quando ele morreu, em pleno auge, comandando a Sala Cecília Meireles. Mas dizem que possuía mãos preciosas. E deviam ser, já que eram seguradas. No meu caso, sou nada. E se não fosse o nada que sou, seria algo nada parecido com este nada de agora.

E o Ferreira Gullar? Nele o poema é quase sempre despertado por um choque emocional. Quando, por exemplo, escreveu versos sobre o Vietnã, a coisa nasceu assim: notícias sobre a guerra lidas no jornal; feira de frutas e verduras em frente à sua casa. Deu-se o choque: em um país em guerra, é impossível planejar a vida, impossível ir à feira.

Voltando ao nada, deixo o último parágrafo para Jece Valadão, ator que detestava ser ator. Antes do cinema, o que você fazia? Absolutamente nada. Pois qualquer coisa que eu tenha feito é nada. É o que ele pensa.

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segunda-feira, setembro 15, 2008

Os vigias perdem tempo


Virtudes existem para trazer alegria. Daí que ser livre é o ponto central de uma alma arqueada de orelha a orelha, além de dar fôlego para o trajeto abarrotado de dias em que o sol está escondido atrás do olhar vigilante de alguém. Sim, é preciso muito preparo para seguir desviando dos vigias, daqueles que não suportam a alegria alheia.

Esse tipo de olhar é praticamente uma conduta social. É como se houvesse um acordo tácito no sentido de construir um território de mesquinharia em cada um onde possam se assentar as ocupações do outro, sejam estas banais ou não. É uma miséria este olhar para fora que desconsidera a beleza singular, sempre surpreendente por ser única. Em lugar disso, a observação como um bastão do controle, passado de mão em mão, em um revezamento de muitos por muitos.

Bem, o melhor é estar por cima, abraçado com os virtuoses do júbilo, gente lépida, serelepe. E se tiver que matar, o melhor inseticida para os vigias é o desprezo.

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segunda-feira, setembro 01, 2008

Dos bons e maus tradutores

Apuros vagabundos, não há risco ou condição de corte para o rosto dessa criatura ficar assim tão borrão de medo. Quisera tocar a medula que rege os tomos das coisas suspensas, para sentir nas mãos a haste da bandeira que o futuro pede - sim, a ética do palhaço ou a moral do equilibrista. E se o vento um dia errar de porta, não tem importância. Já tive vento no cabelo, brisa na orelha, tudo suficiente, tudo suficiente para saber que ventos e portas mudam de posição o tempo todo.

São os apuros vagabundos que tornam as pessoas mais infantis. Elas se traem por coisa pouca ou nada, muitas vezes por sequer entenderem o cinismo que sustentam. Mas há os que não são fisgados por essa rede, os que conhecem apuros sinceros, perigos de alma, riscos sérios. Geralmente, permanecem em silêncio e traduzem o perrengue de ontem em gentileza de hoje.

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quarta-feira, março 19, 2008

Sonhar não custa nada

Não é a raiva o motor, nem a indiferença. O pior mesmo é querer sentir pena e não conseguir. Talvez não, talvez seja bom fracassar no desejo por um sentimento pobre. Uma bruma de afeto por esta menina da bunda grande que se veste igual a uma tia covarde. Ela e a sua cara de manifesto mau gosto, que sequer sabe de onde vem – obviamente, aquilo só existe na sua expressão tonta a antecipar rugas como se o tempo fosse mentiroso. Sua cara é lisa e por mais que seja lisa é enrugada.

O que sentir por alguém tão interessantemente desinteressante? Quisera ter uma cama ao lado para, em meio ao calor do descanso, sonhar com alguma resposta desumana.

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quarta-feira, outubro 10, 2007

Listerine em um discurso antigo


A política, quase sempre perversa, vive a bafejar felicidade em votos e juramentos, ainda que hoje não se caia mais nessa tão facilmente. Todos os governos do mundo, sobretudo os da América Latina, contribuíram para o nosso desalento. A demagogia dos homens do poder não conseguiu disfarçar os colapsos, as milhões de bocas famintas, a insatisfação dos povos em perceberem que o básico prometido nunca foi de fato cumprido. Morar, comer, estudar, trabalhar... Todos os governos do mundo contribuíram para a lástima de inseminar entre os pobres a idéia de que a felicidade é meramente ausência de tristeza.

Ademais, a atuação de estados fascistas e comunistas, por exemplo, foi enguiçada, não só por sua ignorância e violência, mas pela ingenuidade em acreditar ser possível apontar um caminho radical de bem-estar para toda uma nação. Por sua vez, o Welfare State só trouxe inchaço e disfunções. Antes das armas e do medo, havia modelos estatais insustentáveis, simplesmente porque não se diz aos indivíduos o que nem como buscar. Por isso, hoje os estados são uma espécie de mágoa que poucos estão dispostos a perdoar.

Estou cansado desse papo chato e vazio.

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quarta-feira, julho 25, 2007

Uma boa dose de misantropia


Wandering Rocks, de Paul Joyce

Estou com um profundo sono, uma vontade imensa de dormir da chatice. De não mais olhar para os sorrisos feitos para as rodas, cheios de sentido social, que se amontoam para celebrar a união dos solitários. Lábios e bochechas cristalizados, de gente que não se assume, daquele tipo de gente que inventa o mesmo porque não agüenta os próprios destemperos.

Como vêm se tornando insuportáveis os egoístas bacanas, em torno deles uma claque bebericando as piadinhas mais sem graça, a inteligência mais sofrivelmente cínica. Enchem-me de desejo por letargia as celebridades de quarteirão, sempre prontas para dar as últimas, as novas, para forçar demonstração de afeto aos supostamente importantes. Juntas formam uma alta sociedade decadente e chegam a cometer o crime de forjar a história dos lugares a fim de manter o verniz de suas poses.

Salve-me, apatia, dos sedutores chinfrins que fazem mogangas elegantes, arranjam lábias graciosas, das mais manjadas, com o descaramento de apresentá-las como se inéditas fossem. Quero sedar-me da ignorância dos que jamais olham para dentro com honestidade, sempre a postos diante da volúpia que lhes oferece engano e simpatia.

Cobiço abraçar-me à indiferença a toda rede social convulsa a se debater pelo selo da antena, o carimbo da articulação. Desdenhosos da introversão, despreparados para as delícias da intimidade. Apeteço ardentemente a indolência, a preguiça robusta daqueles que transformam situações mesquinhas em um poço particular de poder, deslumbrando-se com pouco para navegar em uma superioridade artificial.

Sim, quero hibernar profundamente em solidão e silêncio, sentir o metabolismo desacelerando até o instante em que minhas reservas alimentares sirvam apenas para me aquecer. Minha vida se resumiria a isto: calor e repouso. E lá fora seria apenas um jardim de homens murchos.

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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Explodindo Divãs

Atenção necessidade pago por ouvido Psic me dá uma hora por favor ! mas nada é dado só é vendido então a minha alma emudece porque sou pobre pobre pobre de marré marré marré de si dó ré fá sol lá mi bemóis sustenidos e demais sonoridades.

Tentaram me vender um coelho eu disse não depois um papagaio eu perguntei se era de pirata era sim então também não comprei aí me vieram com uma toalha chinesa que eu não entendi e mais uma vez eu disse não feito Terezinha da canção de Chico fez com os homens e daí mais então ainda eu dei minha grana toda a um mendigo.

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domingo, janeiro 14, 2007

Do Excesso e da Falta de Luminosidade

O dia começa com os mesmos traços do marasmo. Em um canto, um rosto deformado pelos antidepressivos; em outro uma vaidade míope que se recusa a usar óculos. Ao centro, um sujeito com idade um pouco avançada que insiste em fazer piadinha de tudo e divertir pessoas que ele jura não suportar.

Todos conversam. Soltam suas pelancas e risos miúdos. Mantêm a pose de bons amigos. Afinal, estão em um barco com motor chumbado e comandante flácido. À deriva, precisam fingir o tempero inexistente e transformar frustrações na acetona que fará bem às suas tintas.

Ao longe, dois rapazes observam: um é surdo e o outro não. O primeiro está salvo pela própria deficiência; o segundo parece inquieto e anota alguma coisa em um pedaço de papel. Seria uma bela fotografia, se não estivesse sobreexposta.

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