quarta-feira, julho 25, 2007

Uma boa dose de misantropia


Wandering Rocks, de Paul Joyce

Estou com um profundo sono, uma vontade imensa de dormir da chatice. De não mais olhar para os sorrisos feitos para as rodas, cheios de sentido social, que se amontoam para celebrar a união dos solitários. Lábios e bochechas cristalizados, de gente que não se assume, daquele tipo de gente que inventa o mesmo porque não agüenta os próprios destemperos.

Como vêm se tornando insuportáveis os egoístas bacanas, em torno deles uma claque bebericando as piadinhas mais sem graça, a inteligência mais sofrivelmente cínica. Enchem-me de desejo por letargia as celebridades de quarteirão, sempre prontas para dar as últimas, as novas, para forçar demonstração de afeto aos supostamente importantes. Juntas formam uma alta sociedade decadente e chegam a cometer o crime de forjar a história dos lugares a fim de manter o verniz de suas poses.

Salve-me, apatia, dos sedutores chinfrins que fazem mogangas elegantes, arranjam lábias graciosas, das mais manjadas, com o descaramento de apresentá-las como se inéditas fossem. Quero sedar-me da ignorância dos que jamais olham para dentro com honestidade, sempre a postos diante da volúpia que lhes oferece engano e simpatia.

Cobiço abraçar-me à indiferença a toda rede social convulsa a se debater pelo selo da antena, o carimbo da articulação. Desdenhosos da introversão, despreparados para as delícias da intimidade. Apeteço ardentemente a indolência, a preguiça robusta daqueles que transformam situações mesquinhas em um poço particular de poder, deslumbrando-se com pouco para navegar em uma superioridade artificial.

Sim, quero hibernar profundamente em solidão e silêncio, sentir o metabolismo desacelerando até o instante em que minhas reservas alimentares sirvam apenas para me aquecer. Minha vida se resumiria a isto: calor e repouso. E lá fora seria apenas um jardim de homens murchos.

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8 Comentários:

Às 4:41 AM , Anonymous Renata Miloni disse...

Guto, gostaria de te fazer um convite, mas não tenho teu e-mail. Entre em contato, por favor.
renatamiloni arroba revistamalagueta ponto com
Abraços!

 
Às 5:52 AM , Blogger Bia Ferreira disse...

Uau!! Nunca vi tanta poesia e revolta num só discurso!!!!

 
Às 12:45 PM , Anonymous Claudio disse...

O texto mostra um incorformismo muito interessante.
Basta! De tudo.
Gostei

 
Às 1:27 PM , Anonymous Erika disse...

Eu queria me abraçar à preguiça.. e à languidez.. e me deixar ficar.
Mas o "mal" dito despertador nunca deixa.

Beijos

 
Às 2:52 PM , Blogger Aquarela disse...

Uai guto, morando no mar, quer dizer num veleiro, como eu moro é difícil fincar raízes em qq porto, assim estou sempre em movimento... bons ventos de palaiokastritsa/kerkira/gr
se quiser me visitar, seja bem vindo a bordo aqui vc encontrará as coordenadas www.veleiro.net/aquarela

 
Às 9:43 AM , Blogger Lu Cordeiro disse...

Ei, Guto, depois de uma parada pra resolver mta coisa, voltei. E me deparei com mais um post seu repleto de sentimentos inconformados, mas com uma viés poético fantástico. Estou começando um espaço novo, junto com outro blogueiro que gosta de contos, o Sílvio Vasconcellos. Está saindo do forno, estalando. Dá uma passada lá nas Esquinas pq tem toda a explicação a respeito dele. Depois, se der, entra no "Olegária Quer Falar". Creio que vai lhe agradar. è um blog-novela, alternando posts do Sílvio com os meus. Te espero com seus comentários inquietantes...rss.
Beijos

 
Às 3:35 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Batatinha quando nasce esparrama pelo chão e Gutinho quando dorme é um grande batatão.

 
Às 3:44 AM , Blogger Lidiane disse...

Guto.
Esse sentimento de inadequação não é só seu.
Não digo que cansei, porque sei que ainda falta muito para viver. Mas, às vezes, a vontade, é desligar o volume das pessoas e aumentar o volume do silêncio de quem, por não ter muito a dizer, descarrega, nesse mundo já lotado, o sentimento de ser o que não é e de não ter o que não precisa.
Haja...

Beijinho.

 

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