sábado, julho 21, 2007

Os dedos de um costureiro


O corpo de Inácia tinha um brilho de cera e estava exposto àquelas mãos sábias de costura. Ele a percorria aflito, pois cada curva da amada era o desenho do desinteresse, as linhas apuradas da frieza, até mesmo de certa antipatia. Revelava também outras pegadas, rastros de outras mãos que o inculcavam. Que tipo de ousadia se fez por ali? Alguma quimera, que não fora a dele, gemeu e esparramou-se. Para ele, o olhar encurtado, da sobra dos dias; a carne acanhada de tanto desfrute.

Toda noite, ele ia para frente da janela de Inácia para vigiar as entradas e saídas, quem chegava e dormia, quem dava uma rapidinha, quem a fazia gargalhar, quem lhe brindava com mais êxtase. Quando não aparecia ninguém, ou quando quem dentro estava sumia, ele se aproximava, com suas mãos sábias de costura, para tentar remendar aquele corpo e reutilizá-lo. Embora a amasse profundamente, não poderia esperar um só pra si.

- Eles pagam pelas minhas coxas, pela maciez da minha bunda, pelo calor daquilo que perseguem. São tontos e fáceis de ser enganados. Alguns dão certa dignidade ao ato, mordem de arrepiar, usam bem os dentes. Mas a maior parte vê o manjar na frente e não sabe por onde começar.

Por vezes Inácia o sangrava assim, fora da cama, com sua filosofia resoluta.

- Não posso me deixar possuir pelos braços da tolice. Eu não sou desses homens. Eles apenas me querem e me pagam. E o que recebo se desmancha, ali mesmo. O que recebo é só costume.

Ele ouvia a dureza de mais uma impossibilidade. Como ser picante, causar comichão se era banguela? Seus dentes postiços de nada serviam, pois o que é postiço não pode fazer tremer. Assim acreditava, assim ria-se, num riso de desgoverno.

Suas mãos também. Inúteis, apesar de Inácia estar linda no vestido que ele fez para ela. O corte, que valorizava as costas agudas, oferecia contornos elegantes à pele morena, tão esplêndida e tão arredia àquelas mesmas mãos. Mãos hábeis e insuportáveis. Pensou em cortá-las, jogá-las fora, em um rio repleto de piranhas que as trucidassem. Agarrou-a, feroz como jamais estivera, com a memória apagada, com dentes nos dedos. Inácia, que só recebia costume, desta vez acolheu a surpresa. O pêlo eriçou na mão que mordia, na mão inventada, mais forte apertando, mais forte assumindo o território. Pegou pelo cabelo, por trás, atochou tudo, latejando. Era prazer e era culpa pelo atraso. Ouviu o gemido inédito, de um corpo ainda não totalmente despido. A carne que balançava a cada estocada, o vestido que ele fez para ela, o vestido que ele fez para ela.

- Onde você quer que eu enfie a minha mão?

Inácia pegou a mão dele e colocou em seu clitóris. Pelo espelho, ele via o reflexo dos olhos viradinhos. Era Inácia traindo toda a sua filosofia.

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13 Comentários:

Às 8:36 AM , Anonymous Erika disse...

Uau, Guto!!

O que posso dizer diante da cena que se abriu aos meus olhos?

Gula é apenas um dos pecados que se fez presente aqui.. e aí, no texto.

Adorei.

Beijos

 
Às 3:05 PM , Blogger perdidinha... disse...

uhuuuuuuuuuuu!rs...
hoje é sábado, moço!acordo tarrrrde sábado!rs...
beijocasssssssssssssssssss.

 
Às 3:56 PM , Blogger Stella disse...

poxa... é. é isso, dá-le inácia e o costureiro hehe

 
Às 8:01 AM , Blogger Bia Ferreira disse...

Nossa!!!!
Impactante, eu diria!
também gostei daqui, muito boa tua narrativa. Muito bom mesmo!!

 
Às 6:42 PM , Anonymous Mineira disse...

Excitante!

Por um momento, fiquei sem fôlego...

 
Às 9:19 AM , Blogger B. disse...

Belo texto.. delicoso, aliás.

Não entendi teu comentário, moço.
Mas obrigada pela visita.

Bisous.

 
Às 1:52 PM , Blogger Aquarela disse...

A forma escrita é sempre envolvente, mas é piegas e me lembra velhas fantasias masculina... coisas do incosciente coletivo. será que isso nunca vai mudar ou evoluir, o amor ou sexo sempre será subjulgo do outro??

 
Às 1:53 PM , Blogger Aquarela disse...

digo inconsciente

 
Às 7:23 AM , Anonymous Edson Marques disse...

Guto,

uma confissão sem medo de errar: esse teu texto é um dos mais belos que já li em toda minha vida!

Até as vogais tônicas dançam em nossa língua, harmoniosas...

Parabéns!

Se você não encontrar razões para ser feliz, invente-as.



Abraços, flores, estrelas..

.

 
Às 10:09 AM , Blogger Guto Melo disse...

pieguice, velhice, inconsciente coletivo? Tem um lance do Alberto Caeiro que é o seguinte: "procuro despir-me do que aprendi, procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram o sentido". Então, escrevo.

 
Às 5:58 AM , Blogger Jane Malaquias disse...

Todo banguela tem a buceta que merece.

 
Às 10:34 AM , Anonymous R. Paschoal disse...

A nossa libido [ enquanto seres humanos ] é fascinante, não acha?

 
Às 3:47 AM , Blogger Lidiane disse...

Pra que filosofia, se a gente pode amar de brincadeira, mesmo quando a loucura é séria?

 

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