quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Boneco Dim




É isso aí meus caros, usar a cabeça para manter o equilíbrio neste mundo revirado. E sem perder o colorido!

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domingo, abril 18, 2010

Frase da semana

Toda alma é uma melodia que deve ser renovada.

Mallarmé

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domingo, março 21, 2010

Eto'o X Milla



A discussão sobre qual o melhor jogador camaronês, às vésperas da Copa, está cada vez mais quente. Os defensores de Eto’o ressaltam a sua projeção internacional. O jogador já teve passagem pelo Real Madrid, Barcelona e atualmente defende a Inter de Milão, equipes que indiscutivelmente estão entre as melhores do mundo. No caso de Milla, o maior time pelo qual atuou foi o Monaco, da França, onde não obteve tanto êxito quanto na seleção.

Bem, eu vou dar o meu pitaco. O Eto’o joga muito, e é o maior artilheiro que a seleção de Camarões já teve, com 44 gols marcados. Mas Milla fez algo que considero maravilhoso: ele revelou o futebol de Camarões para o mundo com doçura e alegria. Aquele “senhor”, de 38 anos de idade, levou Camarões às quartas de final com ginga e inteligência. Era bonito vê-lo em campo, dando dribles desconcertantes e com presença marcante na área. A partir dali, o futebol camaronês, que antes ninguém sabia da existência, começou a ser observado pelo mundo inteiro. Em suma, se hoje Eto’o está onde está foi porque existiu Milla. Outro feito de Milla foi na Copa de 94, quando o Brasil ganhou o Tetra. Ele foi o jogador mais velho a marcar em mundiais. À época, estava com 42 anos.

Enfim, Milla teve a desvantagem de aparecer para o mundo em final de carreira. Mas é sempre mais difícil ser pioneiro. Se Eto’o conseguir nesta Copa levar Camarões às semi-finais, certamente irá sacramentar o posto de melhor jogador camaronês de todos os tempos, pois os resultados falam mais alto. Não veem o caso do Schumacher x Senna. O alemão é considerado, disparado, o melhor piloto de F1 de todos os tempos, por possuir todos os records (títulos, poles e etc...). Mas, cá entre nós - apesar de muitos defenderem que não há como compará-los - o Senna era muito melhor.

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sexta-feira, março 12, 2010

Deixa sangrar

O Caetano compôs uma música com esse título, e a Gal a gravou no excelente Legal, seu terceiro disco. A expressão se repete em Como Dois e Dois – “deixo sangrar” - , canção também gravada por Gal Costa, que está, se não me engano, em Fatal - Gal a Todo Vapor (1971). A expressão faz menção a Let It Bleed, dos Stones, que por sua vez é uma resposta irônica à Let It Be (deixa estar), dos Beatles.

Depois de todo este nariz de cera, vamos ao que interessa. Meu Cd, finalmente, está mixado. Agora é partir para o registro das músicas e masterização. Paralelamente, devo fazer uma página no My Space, e trabalhar capa e encarte. É muito trampo e pouco tempo. Portanto, nada de pressa, tudo na sua hora e frevo, rock e samba no laser.

Este foi o motivo por que não postei na semana passada. Estava ouvindo o material exaustivamente. Estava entre deixar sangrar e deixar estar. E estou até agora, com uma inclinação levemente maior pelo primeiro estado.

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sábado, fevereiro 20, 2010

O retorno 2

Depois de tanto tempo sem escrever aqui neste espaço, fiquei em dúvida se deveria retomá-lo ou se seria melhor criar outro blog e sepultar este. Decidi pela primeira coisa porque se o Mercúrio e Luxúria fosse extinto, seria como se o blog tivesse definhado. E uma das coisas que mais me aterrorizam nesta vida é a imagem de algo se definhando. Não queria ter esta mirra, esta feiura lenta e contínua associada a mim.

O ano passado foi extenuante. Houve o câncer da minha mãe, a instituição em que trabalho foi foco de uma CPI na Câmara dos Deputados, um acidente de carro sem vítimas, meses depois o furto do veículo, o assalto à minha mulher às vésperas da filmagem do seu primeiro longa (o filme está em fase de montagem), o meu CD caminhando como um cágado... E assim foi o ano...

Em 2009, por mais clichê que possa parecer, ficou em mim a impressão de ter vivido mais tempo. Após sua passagem, me senti mais forte e ao mesmo tempo desejoso de descanso. Que 2010 seja um ano mais tranqüilo! – mentalizei à meia-noite do dia 31 de dezembro, enquanto o estampido dos fogos ao longe ilustrava o meu anseio mais íntimo de então: estampidos distantes! Sim, eu quero os estampidos distantes!

Depois de todo o cansaço emocional, além de descanso, necessito de novo vigor. Reside aí, mas não só, o impulso para ressuscitar o Mercúrio e Luxúria. Durante algum tempo, este blog me refletiu de um modo muito apropriado, apesar de os posts não tratarem diretamente de aspectos da minha vida. O que há para trás, no arquivo, é poesia, fantasia e, digamos, uma literatura rascunhada. Daqui para até não se sabe quando, o que vou postar será a minha voz sem o “disfarce” da figura do escritor como instância narrativa. Acho que esta segunda etapa vai ser mais filosofia.

Abaixo, o primeiro post da volta. Vou procurar postar toda sexta ou sábado.

Um grande abraço aos que voltarem por aqui e aos novos que chegarem.

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Tempo: intuição e oração

Gaston Roupnel (1874-1946), um historiador e escritor francês, defendia a ideia de que a realidade concreta do tempo é o instante. Para ele, o que de fato importava era o presente, pois via o passado como sombra e o futuro como incerteza. Roupnel também acreditava que a sucessão de instantes conferia o sentido de duração, manifestando assim uma visão linear do tempo. O caráter de urgência que imprimimos às tarefas mais banais, o tal dito para que deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, o espírito hedônico que manifesta constante relutância em adiar o prazer e outras condutas ditas contemporâneas mostram que, de um modo geral, o conceito de Roupnel continua atual, pelo menos quando observamos o mundo em termos práticos.

Bachelard, que era amigo de Roupnel, desmonta esse pensamento para ampliá-lo de modo muito cativante em sua obra A Intuição do Instante. Para Bachelard, por não sermos capazes de acessar todos os instantes de nossa trajetória, muito de nossa vida se apaga, proporcionando um rompimento do ser e um sentido de descontinuidade do tempo. Vai além, ao dizer que por vivermos presos ao instante acentuamos a nossa solidão, pois ao nos voltarmos para o passado nos deparamos com o abandono dos acontecimentos esquecidos; já o futuro, sendo um conjunto de instantes desconhecidos, tumultua a nossa esperança. O resultado disso no presente seria uma solidão mais profunda.

O pensamento me encanta por sua poesia e sofisticação, e creio se aplicar ainda às nossas crises de ansiedade, pois nossas expectativas também são instantâneas e, portanto, marcadas de fugacidade. Reside aí a base de nosso medo vago: tudo é assumidamente transitório, mas a vivência do tempo como algo linear é permanente. Ao cometermos esse erro, diria mesmo que se trata de uma estupidez, vamos sedimentando uma imensa barreira em relação ao tempo. Como conseqüência, suportamos mal a sua ação sobre nós, temos dificuldade em envelhecer, com manifestações do acaso, em aceitar o ritmo próprio do que a vida nos oferta ou simplesmente em sair da rotina, o que nos impõe ocupar o tempo de maneira não esquemática.

Ontem, um amigo me perguntou o que vou fazer amanhã. Eu respondi “não sei, talvez fique em casa”. Ele me falou de festas e eventos na cidade e disse que ficar em casa não era programa, mas sim perda de tempo. Eu disse a ele: meu amigo, o tempo já é perdido.

Abaixo Oração ao Tempo, uma canção de Caetano Veloso de que gosto muito. De quebra Fernanda Motta pinta o artista.






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terça-feira, fevereiro 16, 2010

O retorno

Ando com vontade de retomar o blog. Mas antes de voltar a escrever aqui, devo dizer algumas coisas:

1 - Brisas e Foguetes é um esboço que poderá ter continuidade (e reparos)
2 - O CD... Meu Deus, tanto rolo aconteceu. Bem, tudo está mixado, quero fazer ajustes de automação, principalmente na minha voz. Mas o sujeito responsável pelo trampo sumiu.
3 - Estou com muita vontade de voltar a escrever.

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domingo, setembro 20, 2009

Brisas e foguetes - parte 2



Nos últimos dias vem observando o movimento de todos ao seu redor de modo mais detalhado. Uma sobrancelha que se eriça, o entrelace dos dedos das mãos, um olhar que se encolhe ou se arregala, um semblante de “nem te ligo” tentando disfarçar sem êxito a intensa raiva que come por dentro. Afinal, para aprender o fingimento, é necessário estar atento a esses alimentos de percepção e de cinismo, a isso tudo que nos torna simultaneamente espertos e covardes.

Há alguns anos não via o mar. Provocou hoje um reencontro com este sem fim de água salgada em forma de maré. Ao por seus pés na areia, sentiu-se acariciado pela natureza. Sem entender, começou a rezar, a pedir para a morte não chegar tão cedo. Mais tarde um outro reencontro aconteceria: Júlia, aquela mulher que o menino do espírito magro jamais soube se foi sua. Ela iria aparecer em algum momento para por os pés na areia junto com ele.

Os pés de Júlia eram delicados, tão delicados, extremamente delicados. Pareciam não ser feitos para pisar ou caminhar. Levita, minha coragem ausente... E faz de mim o que bem quer. O menino do espírito magro acendia esperanças com o isqueiro da memória. Havia uma oportunidade para rever-se bom, deveria haver pelo menos. Olhou para o céu e convenceu-se de que estaria lindo nesta hora. Não poderia falhar.

Da vida sempre lhe restaram as migalhas. O pão mesmo, com miolo mole e manteiga, ficava para os seus inimigos burros. Daí, julgava-se mais burro que eles. E vivia o abandono de sua própria fúria contida, acocorada - uma fúria na posição de cagar que não expulsava merda nenhuma. Uma estupidez a lanciná-lo com o silêncio da força que não acontece para fora.

A maré foi aumentando, o mar ficando mais cabuloso. As dinamites que explodiam na Cantareira e faziam as janelas da sua casa tremerem destruíam o seu vigor de espera. Júlia não viria, denunciava o passar das horas. Mas lá ao longe, havia um cisco humano. Quem sabe, o coração se alegrava. Quem dera, o coração se assumia.

Os pés na areia não deixariam pegadas. Júlia teria de ressurgir.

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quinta-feira, agosto 27, 2009

São tantos e nenhum

Vinícius (o de Moraes) certa vez disse que, embora não se considerasse um ser deprimente, tinha na tristeza um combustível para a criação. Este mesmo homem afirmou que Marilyn Monroe foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só existisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos.

Lygia Fagundes Telles não admitiu ser pessimista, pois este é um mal-humorado. Dá graças a Deus por saber rir de si mesma. Isso não costuma acontecer por aqui, na capital. E a ausência desse riso de si, tão sábio e revelador, leva as pessoas a se esgotarem rapidamente. Sim, sou mais das pessoas do que dos lugares, mas via de regra as pessoas mimetizam os lugares. Então, dá na mesma. Quero ser amado em Ipanema, agora, agora. Salve-me Millôr com sua pílula antialérgica.

Jacques Klein, brincando de ser ou não ser, cogitou ser escritor, caso não tivesse sido pianista. Nunca o vi tocar, nem em vídeo. Eu tinha recém-completados oito anos quando ele morreu, em pleno auge, comandando a Sala Cecília Meireles. Mas dizem que possuía mãos preciosas. E deviam ser, já que eram seguradas. No meu caso, sou nada. E se não fosse o nada que sou, seria algo nada parecido com este nada de agora.

E o Ferreira Gullar? Nele o poema é quase sempre despertado por um choque emocional. Quando, por exemplo, escreveu versos sobre o Vietnã, a coisa nasceu assim: notícias sobre a guerra lidas no jornal; feira de frutas e verduras em frente à sua casa. Deu-se o choque: em um país em guerra, é impossível planejar a vida, impossível ir à feira.

Voltando ao nada, deixo o último parágrafo para Jece Valadão, ator que detestava ser ator. Antes do cinema, o que você fazia? Absolutamente nada. Pois qualquer coisa que eu tenha feito é nada. É o que ele pensa.

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quinta-feira, outubro 23, 2008

Às pessoas que transitam por aqui

Há tempos que não posto, e vou continuar ainda um tempo sem postar. Até estava preparando um seriado que publicaria por capítulo semanalmente, mas não estou tendo tempo para revisá-lo de modo criterioso. Bem, a novidade é que estou gravando um CD com músicas de minha autoria. Isso, juntamente com o meu ganha-pão diário (uma assessoria parlamentar que atua com projetos ligados ao setor elétrico), está consumindo toda a minha energia (trocadilhos à parte). Mas o CD está ficando bem interessante. E este é o principal projeto artístico ao qual estou me dedicando no momento.

Paz a todos, de coração.

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sexta-feira, maio 16, 2008

O ato da entrega

De um modo geral, a entrega de cargos neste país está atrelada a algum escândalo, ainda que não comprovado. Políticos largam o osso porque a corrupção arromba seus postos. E não é só um cargo ou um lugar de fala o que não pode ser sustentado. A insustentabilidade, embora momentânea, de um caráter fidalgo, que sempre vestiu o aparelho estatal, é o aspecto mais positivo trazido por toda a avalanche de sujeira exposta na mídia. Se não somos capazes de mudar o rumo do país pela via do entendimento das nossas falhas históricas de caráter, então que seja por meio do bico da águia, faminta por notícias e “verdade”.

Talvez seja por esse costume de ver o ato da entrega de cargos como conseqüência da prática da corrupção que muita gente se surpreendeu com a saída da ministra Marina Silva. Como assim? Não houve nenhuma maracutaia, nenhum feito ilícito? O ato da ministra soa como ousadia por, de certa forma, quebrar uma expectativa automática. Além do mais, saiu sem antes levar um papo com o presidente, tramando a retirada na surdina, mostrando que por debaixo dos panos a dignidade também é possível. Sua decisão, repentina porque silenciosa, é fruto de um tipo de coragem que decorre do cansaço. Mas a falta de resistência para continuar em exaustivas quedas de braço é apenas aparente ou, pelo menos, não se converte em paralisia, embora a própria ministra tenha afirmado que a sua saída se deve à estagnação do governo nas questões ambientais.

Em vários momentos o cargo da ministra esteve ameaçado. Ela mesma já havia dito que se considerava uma exceção e a turma anti-Marina, os ditos desenvolvimentistas, nunca se mostrou disposta a conviver com o “desvio”. Exceção não apenas pelo que defendia. A acreana Maria Osmarina, ainda menina, “cortou seringa”, plantou roçado, caçou e pescou para ajudar o pai a sanar uma dívida com um seringalista de Belém do Pará - o patrão financiara a viagem de volta ao Acre para toda a família, que não se adaptou em terras paraenses. Alfabetizou-se apenas aos 17 anos, após se mudar para a capital, Rio Branco, em busca de curar uma hepatite que estava sendo tratada como malária. Depois da alfabetização, cursou supletivos enquanto trabalhava como doméstica, ingressou na Universidade Federal do Acre e se formou em História.

Esta brilhante exceção saiu da floresta, conviveu com Chico Mendes, liderou movimentos socioambientais e foi mais uma vez para a capital, desta vez a do país, como a mais jovem parlamentar a ocupar uma vaga no Senado Federal, derrubando ex-governadores, empresários e outros velhos caciques da política regional. Ao se tornar ministra, travou sem cessar vários embates com o governo, não só a respeito dos desmatamentos, mas em questões ligadas a produção de alimentos transgênicos, saneamento básico e outras de sua pasta.


Tamanho capital biográfico deve ser uma ofensa para quem tem cifrões tatuados na testa ou para os que respiram o ar da retórica a fim de, com todo fôlego, sustentar um discurso que não possui lastro na realidade. Marina é sincera, ética, de fala simples e inteligente, detentora de um brio admirável e outras qualidades há muito ausentes entre os políticos. Marina não é fidalga e tem o que sustentar. Ela é o acerto de caráter, maciço como a mata fechada, digno de seu ato de entrega.

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sábado, fevereiro 10, 2007

Carnaval do Mal

Pois é, decidi passar o carnaval aqui mesmo em Brasília. E tem carnaval na capital? Se formos pensar em política, tem o ano todo. Mas o que quero mesmo é samba ou, se samba não houver, música qualquer para alegrar meu esqueleto. Como sou um garoto de fé, sempre penso que alguma coisa deva haver. De bacana. Dificilmente penso errado.

Descobri um lance chamado Carnaval do Mal, uma festa que rola em Brasília e que está em sua 6º edição. Este ano ela vai acontecer aqui na Asa Norte, pertinho de casa. Ai chuchu! Pelo menos na segunda, dia em que a esbórnia vai rolar, eu vou ter com o que me aquecer. Parece que lá tudo é barato, bonito e gostoso. A entrada custa cinco até a meia-noite. Para dar um toque especial, a garota-anarcopinga oferece gratuitamente a tal da anarcopinga – a marvada, o kitut. Já fiquei sabendo que a parada é para derrubar os vivos e levantar os mortos

A prévia também está fluindo. Hoje mesmo tem encontro de blocos na 302 Norte. Faltam os outros três dias. Mas na segunda... Na segunda é certo. Carnaval do Mal - In Vino Veritas, In Cachaça Carai.

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domingo, janeiro 28, 2007

Um Trago na Dúvida

Ando sentindo dores. Há anos é assim. São dores de estômago, intestino, de digestão. Às vezes minto, digo a mim mesmo que não tenho dor alguma. E às vezes acho que essa coisa alguma é livramento. Será isto mesmo? A mentira é nossa doce salvação? Tem dias que até um copo d’água me ofende. Em outros, como porco e parece que o que comi foram folhas de alface. Se fosse grave, já teria sido arruinado, pois o tempo não suaviza nestas horas. Então, o que existe de fato são insultos, afrontas e mais nada.

Convicto do meu estímulo e da minha imagem, puxo um cigarro da carteira e acendo-o. Cada cigarro que fumo é um voto de confiança em Deus. Fumo pouco, para não confiar demais. Não é por descrença. Mas sim para poder continuar desconhecendo-o e mantê-lo mistério em minha vida. Houve um tempo de eu não acreditar mais e as dores eram mais fortes. Castigo não era. Havia sim, no meu abandono, uma forma lancinante de carinho. Fumava horrores – excesso de confiança. E nesse abuso morava a minha fé abalada, fruto de uma intimidade forçada e da rispidez do impulso, já que só consigo ver Deus como ente secreto.

Nesse tempo, trabalhar era o meu calcanhar de Aquiles. Mergulhado em um rio de dúvidas, eu não tinha tempo para lavrar. Perdia horas sofrendo com as travessuras de minhas metas inatingíveis; outras horas intermináveis em querer e não querer tudo o que para mim estava feito – sim, estava lá, à minha espera, de olhos vivos e brandos e tudo o que eu conseguia fazer era não suportar. Vez por outra me punha a sentir raiva daqueles que irradiavam a sua sobranceria, das pessoas opacas que por ignorância não sabiam reconhecer esplendores.

Mas por bem, mesmo em momentos de estúpida fragilidade, se é capaz de alimentar máximas defensoras com aquilo que resta de ileso. E que tudo passa, passa. E sempre passará. Os dias teimosos insistem em negar; o princípio livre dá o sopapo que os dias merecem. Hoje as dores de digestão que sinto são trôpegas. São como visitas de saudade. Afinal, dentro de mim a fervura as atrai. Eu é que não caio mais nessa.

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domingo, janeiro 14, 2007

Do Excesso e da Falta de Luminosidade

O dia começa com os mesmos traços do marasmo. Em um canto, um rosto deformado pelos antidepressivos; em outro uma vaidade míope que se recusa a usar óculos. Ao centro, um sujeito com idade um pouco avançada que insiste em fazer piadinha de tudo e divertir pessoas que ele jura não suportar.

Todos conversam. Soltam suas pelancas e risos miúdos. Mantêm a pose de bons amigos. Afinal, estão em um barco com motor chumbado e comandante flácido. À deriva, precisam fingir o tempero inexistente e transformar frustrações na acetona que fará bem às suas tintas.

Ao longe, dois rapazes observam: um é surdo e o outro não. O primeiro está salvo pela própria deficiência; o segundo parece inquieto e anota alguma coisa em um pedaço de papel. Seria uma bela fotografia, se não estivesse sobreexposta.

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O Lado Bom do Escuro

São eles. Os andaimes voltaram. Depois da reforma da fachada do prédio onde moro, que durou incontáveis furos de britadeira e intermináveis visões de um véu verde sobre o ferro montado, eles estão de volta e em frente à janela do quarto onde surro o teclado. Eles são feios, grossos e me dão a impressão de que a qualquer momento irão invadir o apartamento e tomar conta de tudo. Não me deixarão circular pelos aposentos, não permitirão ao menos aquela sesta que costumo dar após o almoço, sobremesa e descanso para o corpo.

Talvez me expulsem. Esses andaimes lesam o que vejo do céu, se colocam entre mim e qualquer coisa. Imponentes e desnecessários, seguem com a missão de atrapalhar, de pôr terra e cimento em minhas delícias, no gosto que tenho em observar amplitudes, em ver o mundo se abrir. Ontem eu evitei a janela para não cruzar com o dito cujo. Hoje, mais desencanado, o encarei, mas confesso que a vontade de desmontá-lo ainda não passou.

Para completar, a lâmpada do quarto queimou na madrugada de ontem. Fiquei escrevendo no escuro. Ruim para a vista quando olhava para o computador. Bom para a vista quando olhava para os andaimes.

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terça-feira, janeiro 09, 2007

El Vidrio

Um medo invade por conta da coisa que pode crescer e se tornar insuportável. Soltura na alma, rugas na testa, vamos em frente que toda hora é hora de nutrir mais um pouquinho. Coração sem prato de balança é o bife mais vermelho e suculento que pulsa sonhos protéicos. Rumba toca em minha varanda-jardim. Minhas flores dançam com as sementes e com o solo. Espero que meu estômago compreenda. Espero que eu possa levar tudo o que vou precisar comigo ou dentro. Espero que as coisas que eu deixar sejam requintes da lembrança. Quero escrever tudo. E quando voltar, escrever tudo novamente.

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segunda-feira, janeiro 01, 2007

Festa na Casa de João Paulo Procópio

A morte surge em uma conversa e à mesa. Isso só depois de Sofia e Fernanda terem se retirado para dançar. Duas meninas gentis e promissoras. 2007 será bom depois daqueles abraços quentes, não é mesmo Vagulinha? Um gole de vinho aqui, outro ali e mais outro acolá. Luz de vela serve de isqueiro e no final lambe o papel. Sinal de que devemos ir para a pista de dança também. Eu e Vagulinha. Sábia decisão, pois bastou botarmos o pé fora da grama que a chuva apertou feio no terreno descoberto.

A morte é como Adélia diz: morre-se. E não se resolve dentro da gente. Mas e a vida? E a vida o que é diga lá, meu irmão? – as pessoas cantam quando a eletricidade dá o cano e o DJ fica de calça arriada. Festa também se faz no escuro. Com as palmas das mãos improvisamos um batuque singelo para entoar as canções que alegram a nossa alma. A gente toda do lugar não está menos embalada, nem menos flutuante. Assumimos as nossas reverberações. Chamamos na chincha, sem bronca. Cada samba é um peixe graúdo e a pista é o barco da memória.

Fernanda beija o anfitrião. Depois se instala em um canto e segue beijando a noite inteirinha uma, duas, três, incontáveis bocas. É sem fila a oferta da doçura. É um verso a mais na canção de Gonzaguinha.
Eu e Vagulinha trocamos palavras e carícias e canduras. Eu digo que quero agrasalhá-la e ela ri do mistério do termo atrapalhado. Gralha que é parente do corvo que é poesia de Poe. Gralha que sou eu, pessoa tagarela. Tagarelice esquenta? A luz volta e Tim Maia vem para nos dizer que eles agora estão numa relax, numa tranqüila, numa boa. Nós também estamos.

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quarta-feira, dezembro 20, 2006

Jazzmim

São flores improvisadas o que ouço agora. O trágico Bill Evans toca 34 Skidoo em seu piano iluminado; reforma acordes. Belo post-bop-jazz-piano. Filho de mãe devota e pai alcoólatra o Bill Evans. Na seqüência, Dave Brubeck com Take Five. Ele que tanto sabe captar a lama da meia-noite. Mais um ou dois sopros e caio nas teias de Miles Davis. Old Folks me suspende, me transforma em um pedaço de pano e me prega no céu. São várias partes de mim que formam um pequeno varal, bem detrás daquela nuvem ociosa que parece anunciar que vem chuva. Agora é a vez de Ella Fitzgerald cantar elegantemente com Louis Armstrong. Don’t Be That Way é o som. Meu coração está partido. E eu não tenho mais nada a fazer hoje no trabalho. Vou embora pra casa. E vou levar o cheiro desse Jazzmim.

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quinta-feira, dezembro 07, 2006

¿Qué son los libros?

"seres vivos en su silencio, ardientes en su calma”.

Gabriela Mistral, poeta chilena.

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Mistério do Planeta

Novos Baianos


Cantinho do Vovô, Jacarepaguá (RJ), década de 70. A performance de Paulinho Boca de Cantor tá um deleite só. Apesar do título, esta canção é o acorde explícito do meu ascendente escorpião e de toda zona planetária em libra na casa XII que recebe o bonito nome de stellium. Composição de Galvão e Moraes Moreira. Abaixo, a letra:

Vou mostrando como sou / E vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo / Andando por todos os cantos / E pela lei natural dos encontros / Eu deixo e recebo um tanto / E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas / Passado, presente, participo sendo o mistério do planeta / O tríplice mistério do "stop" / Que eu passo por e sendo ele no que fica em cada um / No que sigo o meu caminho e no ar que fez e assistiu / Abra um parênteses / Não esqueça que independente disso / Eu não passo de um malandro / De um moleque do Brasil / Que peço e dou esmolas / Mas ando e penso sempre com mais de um, por isso ninguém vê minha sacola.

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