quinta-feira, julho 03, 2008

Maria e Zach

Maria Antonieta, de Sofia Coppola, é um filme que pretende se diferenciar de outros filmes de época - a própria cineasta considera filmes do gênero “distantes e aborrecidos”. Sendo assim, opta por focar menos os elementos históricos e mais o choque vivido pela arquiduquesa austríaca ao chegar a Versalhes, ainda na fase da adolescência, para quatro anos mais tarde ser coroada rainha da França. Até aí nada demais. A opção de Coppola poderia ter sido interessante se a tintura pop, que funcionou bem em Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros, não contribuísse desta vez para encolher a personagem e tornar o filme menos complexo e um tanto enfadonho.

O filme tem um bom começo, com a partida de Maria Antonieta. Ela deixa a Áustria para se casar com o delfim francês Luís Augusto, futuro Rei Luís XVI, e dessa forma selar a aliança entre os dois países. Na corte, mergulha em um ambiente repleto de rituais inúteis e gente maledicente, tendo dificuldade para se adaptar. Como sua principal função é gerar novos Dauphines, algo que demora mais de uma década para acontecer, Maria Antonieta se torna vítima de piadas e sua permanência na corte é o tempo todo ameaçada. Insatisfeita e solitária, ela cria um mundo à parte, regado à diversão e fantasia, para poder suportar a chatice e a rigidez de Versalhes.

A personagem parece robusta em seu silêncio protetor, na forma subterrânea como processa seu desencanto e fabrica instantes de alegria. No entanto, vai perdendo força ao longo da história. Se de fato, Maria Antonieta organizava eventos em seu Petit Trianon e era chegada às festas parisienses (gastou horrores em vestidos e na manutenção de seu palácio), por outro lado se interessou por filosofia, política e história, mostrando curiosidade por questões de Estado. No filme, a correspondência com a mãe é meramente um pretexto para reforçar a falta de garantia de seu posto, contudo poderia ser um modo de realçar seus dilemas juvenis. Mas o filme morre mesmo é no final, ao dispensar três elementos que certamente dariam mais intensidade à proposta da autora: Maria Antonieta perdeu seus filhos, foi acusada de incesto e carregada para o local de execução dentro de uma gaiola. Nada disso foi mostrado. Para completar, a trilha sonora não ajuda a personagem a crescer. Ao contrário, cria um ruído que a encolhe.

Já Crazy – Loucos de Amor, um filme com estética igualmente pop – funciona. A trilha, diferentemente da de Maria Antonieta, vai além da ilustração e se transforma em um componente da narrativa. A cena do delírio de Zach, na igreja, ouvindo o coro a cantar Sympathy For The Devil enquanto ele levita acentua, ao mesmo tempo, as inquietações da personagem e sua necessidade de libertação.

A presença constante da música, outro momento é Bowie no quarto de Zach, nos remete à imagem do disco quebrado, que tem o mesmo título do filme e da família. C.R.A.Z.Y é formado pelas iniciais dos irmãos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan. Em torno de um ponto central, o filme parece afirmar que aquela família “maluca” é uma espécie de disco quebrado que continua tocando.


Esse disco toca o sofrimento vindo da não aceitação, a repressão como um algoz da alegria, a incomunicabilidade entre pessoas que verdadeiramente se amam, a capacidade de renúncia como um ato de generosidade. E toca um hit-indagação: é possível amar a ponto de entregar algo que não se tem para dar? E um outro, refrato: a homossexualidade de Zach é mais uma perturbação do que uma vivência física, enquanto a recusa do pai em conformar-se com um filho gay é muito mais algo concreto que uma perturbação. E depois ainda dizem por aí que dois bicudos não se beijam.

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segunda-feira, janeiro 01, 2007

Festa na Casa de João Paulo Procópio

A morte surge em uma conversa e à mesa. Isso só depois de Sofia e Fernanda terem se retirado para dançar. Duas meninas gentis e promissoras. 2007 será bom depois daqueles abraços quentes, não é mesmo Vagulinha? Um gole de vinho aqui, outro ali e mais outro acolá. Luz de vela serve de isqueiro e no final lambe o papel. Sinal de que devemos ir para a pista de dança também. Eu e Vagulinha. Sábia decisão, pois bastou botarmos o pé fora da grama que a chuva apertou feio no terreno descoberto.

A morte é como Adélia diz: morre-se. E não se resolve dentro da gente. Mas e a vida? E a vida o que é diga lá, meu irmão? – as pessoas cantam quando a eletricidade dá o cano e o DJ fica de calça arriada. Festa também se faz no escuro. Com as palmas das mãos improvisamos um batuque singelo para entoar as canções que alegram a nossa alma. A gente toda do lugar não está menos embalada, nem menos flutuante. Assumimos as nossas reverberações. Chamamos na chincha, sem bronca. Cada samba é um peixe graúdo e a pista é o barco da memória.

Fernanda beija o anfitrião. Depois se instala em um canto e segue beijando a noite inteirinha uma, duas, três, incontáveis bocas. É sem fila a oferta da doçura. É um verso a mais na canção de Gonzaguinha.
Eu e Vagulinha trocamos palavras e carícias e canduras. Eu digo que quero agrasalhá-la e ela ri do mistério do termo atrapalhado. Gralha que é parente do corvo que é poesia de Poe. Gralha que sou eu, pessoa tagarela. Tagarelice esquenta? A luz volta e Tim Maia vem para nos dizer que eles agora estão numa relax, numa tranqüila, numa boa. Nós também estamos.

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