
- Ai amor, eu me sinto tão feliz ao teu lado. Tão leve, tão livre. E por aí as pessoas vivem dizendo que é difícil amar. Sofrem, amargam a solidão, dissipam-se o tempo todo por não terem maturidade suficiente para experimentar e conviver com as ambigüidades decorrentes de um relacionamento a dois. Vincular-se não é castrar-se e nós sabemos bem disso, não é? Tampouco é fundir-se. Nós entendemos o mecanismo de simultaneamente nos unir e nos manter separados.
Eu penso em como o indivíduo se engana ao associar solidão e liberdade. No fundo não vê que não passa de uma prisão narcísica. Preferem a autocelebração a beber das delícias de compartilhar a intimidade. São Procustos centrados em si. Transformam-se em seres insuportáveis por acumularem tanto veneno. Cobranças, ciúme...
... Eu acho que o caminho é se libertar desta materialidade, deste atraso que é se fechar em um espaço apenas concreto. É preciso ser capaz de abstrair para conseguir amar, como nós fazemos tão perfeitamente. As regras são necessárias, é bem verdade, mas...
...E se apegam. Se apegar ao gasto, meu Deus!...
...A crise contemporânea: o vácuo de valores, o mito da eterna insatisfação humana, a fabricação de personalidades pré-moldadas, as projeções dessas máscaras, as válvulas de escape...
...O ser humano está diluído e irreconhecível, querendo o que não tem, frustrando-se, andando de muletas....
...Ai, ainda bem que você me entende, capta minha consciência, sabe que o amor é um convite para sair de si...
...Junta os fragmentos para preservar o sentido de totalidade...
...Evolução é isto: aperfeiçoamento calcado no respeito...
...Como se eu fosse um depósito de suas irresoluções. Homens avaros... Rui?... Rui, Rui! - exclamou Denise, sacudindo-o.
- Que foi?
- Você não ouviu nada do que eu estava falando, não é?
- Desculpe, acabei pegando no sono. Você pode repetir?
- Repetir? Nós estamos numa sorveteria. E seu sundae está derretendo.
- Há quanto tempo eu estou dormindo?
- Não sei.
- Nossa, que caos! Pelo menos ainda posso aproveitar o morango.
- Não é morango, Rui. É cereja.
Neste momento, a campainha do 901 toca e Rui, de meias, cuecas e com uma fisionomia cansada, vai atender. Flávia, exausta depois de mais um dia infernal, esquecera a chave de casa.
- Oi querido. Estou com a pele sebosa. Preciso de um banho – anunciou seu desmonte físico, beijando suavemente os lábios de Rui.
Flávia joga a bolsa no sofá, vai logo tirando a blusa e se dirigindo ao banheiro, movida pela agonia de um calor que insuportavelmente coça a pele. O banho do cansaço é sem tempo. Da sala, Rui concentra-se no barulho da água, que ora incide sobre Flávia, ora sobre o chão. Esse movimento sonoro é violento: por alterar-se sem aviso e por castigar o ouvido de forma delicada.
Rui escuta um ruído na fechadura da porta e tem a sensação de que Flávia está chegando novamente. Mas desta vez é Cláudia quem entra com um sorriso largo e repleta de embrulhos. Despeja os pacotes de qualquer jeito sobre a mesa e corre para o banheiro apertada pela urina. Já aliviada, sai rapidamente para a área de serviços e se surpreende.

- Rui, quem é esta mulher?
- Que mulher?
- Esta, que está lavando roupas no tanque enrolada em uma toalha.
Rui vai até a área de serviços. Não há nenhuma mulher aí – diz enquanto penteia o cabelo depois de ter tomado um banho demorado.
- Para aonde você vai, arrumado desse jeito e a esta hora?
- Vou buscar Alice no aeroporto.
- Alice?
- Sim Cíntia. Alice, minha companheira.
Rui olha para a bolsa que está no sofá.
- Bonita bolsa, Cíntia. Onde você comprou? – e sai para pegar o táxi que havia chamado e seguir o seu destino.
O caminho para o aeroporto é sinuoso. Não só porque Rui está distraído ou porque o taxista optou pelo percurso mais demorado. Cada ponto de luz que vem das janelas dos apartamentos confirma um incômodo ou um esquecimento. E é para esses pontos luminosos que os olhos de Rui se voltam. Enquanto isso, o taxista guia o seu veículo, curva após curva – umas mais abertas, outras mais fechadas – proporcionando ao seu passageiro um balanço e um tempo inúteis. Sim, um tempo inútil e rasteiro, embora extenso.
- Senhor, senhor. Chegamos ao aeroporto.
Rui se assusta com o modo brusco como o motorista o desperta. Ele paga a corrida e sai do táxi apressado. Faltam poucos minutos para o desembarque de Alice e o celular de Rui toca.
- Alô.
- Querido, tentei falar contigo hoje, mas não havia ninguém em casa.
- Você não vem?
- Meu vôo foi cancelado. Chego amanhã no mesmo horário.
- Sinto saudades.
- Não estou te ouvindo bem...
A bateria descarregou e a ligação caiu.
Na saída do aeroporto, Rui coloca suas malas no chão e se espreguiça um pouco. Tira a última maçã e umas barras de cereal que carregava em uma sacola e joga a sacola no lixo. Vamos, o carro está logo adiante – diz Denise. Os dois entram no carro e ela vai conduzindo.
- Estava ansiosa com a sua volta. Sabe, você viajou logo depois daquela briga estúpida que tivemos e eu fiquei dissipada, destruída. Não consigo conviver com a ameaça da desconjuntura. Por um momento, mesmo sabendo que sua viagem era breve, tive a sensação de que você iria para não mais voltar. Nós não podemos cair nesse poço sem fundo, nessa guerrilha infantil, e com isso mimetizar o que há de mais pernicioso nas relações afetivas que estamos acostumados a ver por aí... Rui, meu Deus, Rui!
- O que foi desta vez Denise?
- Você está de só de meias e cuecas. Você viajou só de meias e cuecas? O mundo está mesmo perdido! Como é que permitem alguém embarcar desse jeito? Não é possível que...
Durante todo o trajeto, Rui se concentra nas mordidas que despedaçam a maçã e vai contemplando o sol de uma manhã que se anuncia irradiante. Ele olha para aquela bola estalada no céu e se impregna com o amarelo vivo que vem dela.
- Chegamos – avisa Rui.
Ele desce do automóvel e Denise fica. Entra pelo saguão do prédio, chama o elevador, aperta o botão do nono andar. No quinto, o elevador pára e uma mulher de meia-idade entra e fita-o com estranheza. Ao abrir a porta de casa, Rui se depara com Cláudia, impaciente, andando de um canto a outro da sala, a esperá-lo.
- Rui, você está perdendo as estribeiras. Praticamente todo dia você vai para a farra, mas chegar em casa só de meias e cuecas já é demais, não acha?
Rui permanece mudo.
- Vem cá. Deixa eu te cheirar. Que hálito é este de cereja?
- Não é cereja, Cláudia. É morango.
No corredor que dá acesso ao banheiro Rui cruza com Flávia – Querido, você viu a minha bolsa? Eu tinha quase certeza que ela estava em cima do sofá...

Na área de serviço, Alice parece tranqüila enrolada na toalha e lavando roupas no tanque. Rui a observa um pouco. Ela nota a presença dele, mas o ignora completamente. Rui então volta para a sala e ouve o recado que está na secretária eletrônica.
- Rui, é Cíntia. Por que você não veio me buscar no aeroporto? Eu...
Neste momento, a campainha do 901 toca.