terça-feira, março 06, 2007

Solares

O meu corpo era o Brasil. E ela era o Maranhão. E ela era como uma unha encravada. Uma unha na minha testa. Às vezes me pedia para ser uma doçura despenteada; jogava-se no chão, mole feito uma fruta podre, e dizia versos de Leminski. Versos que eu nem gostava. Ali naquela jaula de sala, nós nos ocupávamos em ser quentes, cada um a seu jeito e em seu canto. Bastava tocar um samba antigo na vitrola que algo de muito nobre podia acontecer – uma lágrima escorrer pela face branda dela ou o meu Brasil se arrepiar dos pés à cabeça.

Mas não havia palavra ou gesto que me fizesse suplantar a dor que sentia. Não se tratava de querer só pra si, mas de uma vergonha compulsiva. Uma vergonha destas que desfigura o rosto, que faz a alma ser uma concha voltada pra dentro. Eu nem sei se tínhamos mais conserto. A impressão é que não prestaríamos mais para muita coisa depois desta tragédia sem morte. Esta é a pior coisa: sobreviver a uma tragédia.

A presença de Vítor na sala era evidente. Estava no canto dos lábios dela, mudando as faixas, escolhendo as canções. No dia do nosso casamento, o sol teceu o amarelo mais pálido que eu já vi e achei que era praga dos céus. Receei que uma maldição tão fosca e sem ânimo pudesse arruinar de vez a minha vida. Eu a amava demais, mas naquele dia custei a acreditar que iríamos muito longe e tudo por causa daquele sol. Agora sei que se eu não estava certo foi porque não permiti ser convencido plenamente.

Na sala a vida continua sem brilho, mas com um colorido macio. Na ponta do sofá que fica em frente à mesinha de centro, eu coloco o meu pé e fico brincando com os próprios dedos. Ela passa com um vestido transparente, leve como o amor mais primoroso. A peça a veste bem, ressalta seus contornos de boa amante, deixa cada pedaço de coxa mais decidido. Não consigo disfarçar a minha excitação. Ela percebe que a fraqueza da minha carne quase me devolve a intrepidez de antes. Mas meu olhar não me sustenta, e ela apenas passa.

Começo a arrumar as minhas coisas. Elas vão em caixas, que são do tamanho da minha vida. Vítor, de algum ponto, deve estar olhando tudo com alegria. Ele: o prenúncio do sol. Ele que me fez chorar lágrimas que eu não tinha. E ela que resolvera deixar de me abrandar, de esculpir meus sonhos. Dois que se merecem? Dois que se acumulam e que agora insistem em entrar em minhas caixas. De relance, o espelho me revela um rosto possesso de uma fúria morta. Se quisesse matar, não teria força. Então, o que resta é permitir que a morte seja em mim uma mentira.

Pronto, tudo meu está reunido. Os quadros, os livros, o cavalete, as roupas e tudo o que ainda me pertence. Sinto não sair mais vazio porque possuo coisas que são minhas. Ela me olha com olhos subordinados ao que não se pode mais evitar. De longe, sinto a sua respiração, um último momento de ternura. Mais uma vez olho para o espelho, que parece se esconder de mim.

Pelas brechas que minha distração consente, ela arruma um jeito de se acomodar a meu lado. Eu sinto como se um doce perigo viesse tomar conta de mim. Ela chega bem perto. Me perdoa – o pedido é carinhosamente entoado. Você não errou – desafino.
Ao bater a porta, me dou conta dos pingos de chuva que caem na calçada. Tímidos pingos de chuva, que nem molham direito.

6 Comentários:

Às 7:03 PM , Blogger lucordeiro disse...

Ser sobrevivente de tragédias é, em si mesma, uma tragédia. Não há perdão para a própria dor. O campo fica minado, as cores se misturam, borradas. Sair para a chuva é a única decisão acertada. Mas é preciso ser muito valente para isso.

 
Às 2:51 AM , Anonymous Erika disse...

Triste e corajoso este texto...

Chuva.. ah chuva boa, que sempre lava tudo.

Beijo

 
Às 6:00 AM , Blogger Girassol disse...

Esse é um daqueles textos que nos faz sentir tocados por cada palavra.
Sobreviver a uma tragédia pode ser também um acto de coragem. Uma nova chance de recomeçar.
Lavar a alma em pingos de chuva e renascer.

Beijos.

 
Às 10:01 AM , Blogger V.B. disse...

As tragédias deixariam de ser trágicas se conseguissemos enxergar um metro além delas.

 
Às 4:41 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Segundo Nelson Rodrigues o casamento perfeito é feito de tres (ou mais) pessoas, mas aquele sol dedo-duro estragou tudo.

 
Às 12:30 PM , Blogger luma disse...

Se o perdão não é íntegro, crescem raízes que florescem mágoas! E o sol, hum...ajuda na floração. Beijus

 

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