sábado, março 08, 2008

Contos de vigário

Passam-se tempos sem que ouçamos falar em contos de vigário. Muito bem. Tornamo-nos otimistas, imaginamos que, se a reportagem não menciona esses espantosos casos de tolice combinada com safadeza, certamente os homens ficaram sabidos e melhoraram.

Pensamos assim e devemos estar em erro. Provavelmente esse negócio continua a florescer, mas as vítimas têm vergonha de queixar-se e confessar que são idiotas. Raras vezes um cidadão se resolve a afrontar o ridículo, e vai à polícia declarar que, não obstante ser parvo, teve a intenção de embrulhar o seu semelhante.

O que ele faz depois de logrado é meter-se em casa, arrancar os cabelos, evitar os espelhos e passar uns dias de cama, procedimento que todos nós adotamos quando, em conseqüência de um disparate volumoso, nos sentimos inferiores ao resto da humanidade. Convenientemente curado, cicatrizado, esquecida a fraqueza, o sujeito levanta-se e adquire consistência para realizar nova tolice. E assim por diante, até a hora da tolice máxima, em que ninguém reincide porque isto é impossível.

Graciliano Ramos. Linhas tortas: obra póstuma.

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4 Comentários:

Às 1:18 PM , Blogger Lidiane disse...

Poxa, perdi meu comentário (de novo).
:/
Perguntava de onde surgiu essa expressão.
Será que foi algum religioso "criativo", que, de tanto contar histórias suspeitas, foi desmascarado?

Graciliano sempre objetivo e cortante.

Beijo, viu?

 
Às 10:48 AM , Anonymous liv disse...

As palavras!!!Conto do vigário! Seria porque os padres escondiam o dinheiro nos santos ocos???!Vigario virou vigarista(esperto)as transformaçoes das palavras:seus sentidos ,signifacos,isto me encanta(G.Rosa soube reiventar a palavra.Em cada tempo e cultura ela toma novos significados.Amo e temo a palavra!Agora,num mundo de vigaristas nao dá para ser ingenuo.Desconfiar é uma palavra pesada,ma...necessaria.Gostei daqui.

 
Às 9:42 AM , Blogger Flavio Vaz disse...

Mestre Graça faz parte do meu pequeno e seleto "time" de escritores prediletos. 'Infância' é o máximo!!! Ao ler o livro, acho difícil alguém não se identificar com a infância dele, seus questionamentos, suas dúvidas.
Abs.

 
Às 7:42 PM , Blogger Bruna Presmic disse...

muito legal o blog!

 

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