quarta-feira, agosto 08, 2007

O menino dos lábios lilases

Um engraxate, que tinha os pés muito inchados, resolveu num dia de muita luz e flor virar palhaço. Entrou para o circo. Em vez de lustrar pisante alheio, tratou de polir a alma com invenções alegres combinadas a um nariz vermelho. De lugarejo em lugarejo, a lona era armada, tornava-se atração, mas em seu hálito, além da chama do riso, havia uma embriaguez de cachaça.

Quando os habitantes de um lugarejo qualquer sabiam da chegada do circo, passavam semanas preambulando, alongados em comentários sobre o homem que cuspia fogo, o atirador de facas, o domador de leões, a mulher de duas cabeças. No dia do espetáculo, geralmente único, colocavam suas roupas novas, compradas de véspera, empetecavam as crianças, que se lambuzavam de algodão doce. “Pai, por que é que o circo só dura um dia?” – perguntava um menino com cambitos de dez pras duas. O pai, sem resposta na língua, fingia não escutar e dava mais algodão doce para o filho.

Descontente com o silêncio, o menino aproveitou um vacilo do pai para escapulir em busca da resposta. Enfiou-se pelo meio da terra na direção de uma tenda improvisada, ali por trás da lona. Viu o palhaço, maquiado e vestido com um macacão bem colorido, engraxando seus próprios sapatos, sentado em um banquinho de madeira. O menino espiava, abobado e tímido.

- O que é isso que você bebe?

O palhaço soltou um leve sorriso. “É um líquido para esquentar o espírito”, a voz um tanto embargada.

O menino lambia os últimos fiapos de seu algodão doce, atento aos hábeis movimentos do palhaço, sapato e curiosidade num brilho intenso e elevado. O pano corria ligeiro sobre o couro, com breves pausas para mais um gole na bebida que ele não conseguia largar de jeito nenhum. O menino tinha os lábios lilases; o palhaço os olhos estourados de álcool.

- Por que o circo só dura um dia?

O palhaço, com um bafo insuportável, passou as costas das mãos no rosto do menino.

- O circo dura o tempo da sua lembrança. Pode não acabar nunca.

O menino pediu a cachaça. O palhaço fez com a língua pra fora para que o menino o imitasse. Pingou umas três gotinhas e fez o gesto de engolir. O menino obedeceu. Seguiu o seu destino de volta, o espetáculo iria começar em poucos instantes. O pai reclamou o sumiço do filho com um beliscão no braço. O menino nem sentiu dor.

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5 Comentários:

Às 10:14 AM , Blogger Mineira disse...

Um belo texto!

"um menino com cambitos de dez pras duas"

Nessa parte a risada me foi inevitável! Adorei!

 
Às 2:12 PM , Anonymous Erika disse...

o líquido de esquentar o espírito...

e fazer adormecer os olhos tristes.

Beijos

 
Às 6:20 PM , Blogger Mari disse...

Adorei!Aliás,eu adoro circo...e palhaços !" O circo dura o tempo da sua lembrança. Pode não acabar nunca." Grande verdade...nunca esqueci os circos que embalaram minha infãncia!

 
Às 10:35 AM , Blogger Lidiane disse...

Guto, seu texto me fez lembrar demais de um livro do Henry Miller: o sorriso ao pé da escada.
O livro fala da difícil vida de um palhaço, que tem de sorrir pra fora, enquanto, por dentro, morre um pouco a cada dia. Fala da tristeza do palhaço que chora da angústia por ter de ser feliz.

Vou decepcionar você: mas não gosto de circo. Sério mesmo. Sou o contrário de todo mundo. Onde as pessoas enxergam beleza no circo, eu vejo solidão. Não me pergunte o porquê. Eu só sinto isso.
Desde pequena.

Beijo.

 
Às 4:33 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Êta analgésico forte !

 

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