terça-feira, agosto 21, 2007

O diário dos homens obsoletos – parte 1

Desde pequeno, eu acredito no amor. Quando criança era mais fácil. Eu tinha um monte de amiguinhos, uma bola dente de leite, um campo de cascalho e serragem no fim da rua, pais que me amavam. A minha primeira diva foi a sombra de uma mangueira que ficava atrás do campo. Um dia olhei para ela e me pareceu uma linda mulher, deitada de lado, com as pernas semi-encolhidas e uma das mãos levemente repousada sobre o chão. Pronto, isso era o amor: futebol, fantasia e pessoas queridas ao redor.

Lá pelos dez anos, dispersava nas aulas chatas no colégio para formular urdiduras, vadiar a mente. Então, imaginava uma classe lotada de belas garotas, todas nuas, anotando com a ponta do lápis as lições de matemática que o professor ranzinza nos ensinava. No caderno delas, em vez de equações algébricas, a grafite rabiscava: como a sua cor é formosa. O ritmo das anotações ia crescendo até acontecer uma sonora explosão. O professor perguntava que barulho era aquele e logo após a pergunta todas apareciam vestidas novamente.

Hoje continuo acreditando no amor como a coisa mais importante da minha vida, apesar dos tropeços. E vou vivendo assim, à procura de um olhar ao mesmo tempo sereno e desvairado, gestos acolhedores e ímpetos sinceros. Mas hoje é muito mais difícil. De minha parte porque nunca aprendi nesta vida a ser só, embora seja, mesmo estando com alguém. O que isso gera de trapalhada não está no gibi. Como não sou único nessa história, há de se considerar as outras estradas que se cruzam com a minha.

Ela chega – uma dessas estradas, macia feito bolo da vovó, clandestina de si mesma, anunciando os fracassos do passado e chamando um futuro mais brilhante. Gosta de afetos sem gorduras, de temperos finos, seu corpo é um stradivarius. Viveu de esquecer e se refazer. Hoje adora plantas e tem enterros não cumpridos. Tenho medo de ser mais um morto sem caixão, um adorno para a sua memória perneta. Como amar alguém assim? Logo eu, que ainda não aprendi a ser só.

*imagem
Mulher Deitada - Hilda Campofiorito

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11 Comentários:

Às 7:39 PM , Anonymous Erika disse...

minhanossinhora.... dá prá desacreditar em amor desse jeito?

beijos

 
Às 8:02 PM , Anonymous Lidiane disse...

Guto, diga que mulher não gostaria de ser descrita assim?
Mostre pra ela e certamente você vai ser amado por uma mulher assim, ainda que não tenha aprendido a ser só, ainda que qualquer coisa.

Música de novo no texto.
E é isso. E pronto.

 
Às 5:11 AM , Blogger Sílvia Câmara disse...

Belas imagens, Guto. Costumo dirigir e, aproveitando os engarrafamentos, observar os troncos das árvores de Salvador.
Encontro tantas semelhanças com seres humanos.
Obrigada pela visita ao Brisa. Volte quando quiser e um abraço.

 
Às 5:12 AM , Blogger Sílvia Câmara disse...

Posso colocar atalho do seu blog no Brisa?

 
Às 5:44 AM , Blogger Guto Melo disse...

ô Silvia, não precisa nem pedir, né? E obrigado por gostar daqui.

 
Às 8:58 AM , Blogger Ni disse...

Nossa.
Não sei se escrevo sobre a idéia (linda) do texto ou sobre a última frase dele. Poxa, que entrou em mim, essa frase toda: "logo eu, que ainda não aprendi a ser só."
É difícil encontrar homens que (d)escrevam o amor. Mais ainda, homens que explanem o amor assim, de um jeito tão bonito - e sincero. Puxa...

Letrar é fascinante. Mais ainda, encontrar o tal do amor. :)

 
Às 11:58 AM , Anonymous Claudio disse...

Lá em Niterói tem uma galeria com o nome da Hilda Campofiorito. Fica no Centro Cultural Pachoal Carlos Magno.
Assim como você eu também tenho o amor como algo principal em minha vida.
Abração

 
Às 4:59 AM , Blogger Fê Probst disse...

Quem acredita no amor, acredita nas coisas mais belas do mundo.

 
Às 12:18 PM , Blogger Flavio Vaz disse...

"Eu preciso aprender a ser só, reagir, e ouvir, o coração respondeeeeeer, eu preciso aprender a só ser...". Já dizia Lupicínio.
Abs.

 
Às 1:44 PM , Anonymous Dai disse...

como não amar alguém assim?
solidão é uma experiência errante. da qual estamos sempre em ponto de partida. abraço!

 
Às 8:51 AM , Blogger Um mundo novo aos corações corajosos! disse...

Dá pra acreditar em amor desse jeito, sim! Absolutamente possível e provável.

Por isso que não deixe de passear por aqui... teu blog é um dos que gosto de verdade!

 

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