quinta-feira, maio 08, 2008

Meus bichos jamais partiram

Todos os bichos que tive, ou morreram cedo, ou foram dados, ou se perderam de mim. O primeiro foi um pequinês, bem engraçadinho, que durou pouco tempo porque meu irmão, ainda um ser que engatinhava, vivia metendo a mão na caca do cachorro e esfregando-a no rosto. Por conta do porquinho, perdi o cachorro.

Depois veio Badaró, presente de um amigo. Badaró era uma tartaruga. As tartarugas são seres silenciosos, elegantes em seus cascos. Todos os dias, ao chegar do colégio, eu verificava as vasilhas da alface e da água. Com a cabeça para fora, ela desenhava um trejeito que parecia ser um sorriso lento e cheio de fibras. Eu entendia como um gesto quelônio de gratidão.

Uma das coisas mais belas que Badaró fazia era bocejar. Seu casco, em minha fantasia, se esticava. Também gostava quando, com o dedo indicador, coçava a cabecinha dela. No início, ao perceber a minha tentativa de aproximação, ela se recolhia. Depois, passou a permitir o carinho amigo, mas cerrava os olhos. Ela se foi, por acidente. Ao descer um batente alto demais, ficou de casco virado para baixo por um tempo além da conta. Foi silenciosa até em seu momento de perigo fatal.

Outro que morreu, este em minhas mãos, foi Jimmy Hendrix, meu cão filarata (fila de raça, viralata de alma). Como cresceu rápido e se afeiçoou rápido e latiu e estranhou toda a gente que não era da casa muito muito rápido. Jimmy era estabanado, alegre e cagão. Não resistiu a uma parvovirose e morreu olhando para mim, como a se despedir, depois de uma última golfada de sangue. Eu mesmo o enterrei em um terreno próximo ao campo de futebol que ficava no final da rua. Não sei bem como explicar o que na época senti com estranha profundidade. Carregar um cachorro morto no colo por cerca de 500 metros e cavar a sua cova foi uma experiência repleta de beleza. Era a baba, o sangue, o vômito, a pele, a morte, o afeto, o descanso, tudo em meus braços sendo conduzido para o fundo da terra.

Antes de meu querido Jimmy, tive uns pintinhos. Os sobreviventes – um gato malvado comeu alguns - em pouco tempo ganharam a estatura de galetos e foram vendidos pela minha mãe a um senhor. Os pintos não se cansavam de pular com sua alegria amarela pela casa. Enfiavam-se por trás do sofá e da geladeira, não davam a menor bola para ninguém. Eram de um egoísmo admirável, sujavam tudo, inclusive meu quarto e os livros que, por distração, eu deixava no chão.

Foi em uma tarde magra, dessas que se espremem entre a hora do almoço e o princípio da noite, que as páginas manchadas de um livro aberto revelaram a travessura daqueles pintos. O poema Eu, Etiqueta, de Drummond, com aquela merdinha miúda em cima do trecho:

“Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos...”

As mensagens, letras falantes e gritos visuais não davam conta do meu riso, que àquela altura era simultaneamente uma saudação à irreverência deles e uma despedida antecipada. Depois que minha mãe os vendeu, não vi mais a menor graça em deixar livros pelo chão.

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3 Comentários:

Às 2:49 PM , Blogger Camilinha disse...

Guto, a Ju está organizando um encontro do blogueiros de Brasília, tá afim? qualquer coisa me diz que te passo os passos...hehe

beijos daqui...

 
Às 11:21 AM , Blogger Luma disse...

Ah, que nomes engraçados dava aos bichos!! Mas estava cá pensando, qual deveria ser o destino dos seus bichos,senão aquele que normalmente todos têm? Todo bicho morre, independente se é nosso ou não! (rs*) Por isso escolho animais pela longevidade. Meu cão já está comigo a quase 9 anos. Boa semana! Beijus

 
Às 11:50 AM , Blogger Guto Melo disse...

Eu já tinha percebido isso. Eu quis dizer "morreram cedo". Vou fazer a alteração. Grande beijo.

 

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