quinta-feira, janeiro 04, 2007

O Embrulho

De manhã eu gosto de odiar o mundo para de tarde estar feito uma mula. Bem cedinho, tomo aquele banho demorado, visto uma roupa elegante e séria e ganho a rua. No ponto de ônibus, aquela menina dentuça diariamente me dá a impressão de que está mordendo a respiração dos que esperam. O Seu Domingos eu até fiz amizade com ele. Corretor de imóveis. Certa vez, perguntou o que eu fazia e eu disse que estava à procura. Ele entendeu que era de trabalho, obviamente. Mal sabe que o que faço é forjar secretamente um ritual de normalidade. O transporte vem lotado. Eu pego qualquer um. Disperso e risonho. Pois é assim que eu odeio: rindo. E odiando-rindo, exacerbo a minha preguiça.

Em uma caminhada pelo centro, alimento-me da rigidez que risca as avenidas. Os prédios são enormes e a minha ambição é do tamanho desta guimba que um suposto executivo acaba de atirar na calçada. Uma maquiagem acima do rosa sopra um odor cosmético. Viro-me e vejo um passo que não cabe no salto. Aqui e ali, corpos e gestos compenetrados. E nenhum sorriso me parece sincero.

Depois do passeio, a volta para casa, a fome e a vontade de me arrastar, de ser lento, entregue. De assumir toda a estupidez que me pertence. De não ser impostor. Um chicote me lanha o ânimo e sela em mim o fado de não viver o meu lado mais feroz, a minha fé menos covarde. Então, invento atitudes triviais. Como dar banho em Alminha, escová-la inteira e catar seus carrapatos. A cadela gosta de se espreguiçar na varanda e depois roer o osso enterrado dias antes. Alminha. Cordeira, pacata, alegre, pueril, a correr e saltar pelos batentes da casa. Vez por outra, abre a sua carne para um esgotamento violento e derrama-se em qualquer canto, com as orelhas frouxas, caídas sobre a cara. A cadela desperta mais o meu apetite do que o cheiro da comida da velha.

Minha mãe mexe a panela de feijão enquanto me olha daquele jeito superior e nojentinho. Você é um vagabundo, não presta pra nada. Cansei de ouvir. Diz que minha vida é de merda e que perdeu a esperança. Mas jamais perde a chama do insulto e da humilhação. Nas nossas discussões, falo de modo a não me mostrar abatido. Imagine, eu, com cara de despedaçado, de decomposto. Seria um prato cheio para ela, que sempre me perseguiu. Se eu permitisse que se fixasse no meu rosto a mais natural das expressões, seria exatamente a de um rosto estúpido. Mas este só aparece no espelho, quando estou só no quarto. Para ela, disfarço com uma cara de quem nega alguma coisa, de contestador.

Ruminava as meditações quando ela, fazendo-se de irritada, disse - Já ia me esquecendo. Chegou um embrulho para você hoje de manhã.

Pergunto o que há no embrulho e recebo uma alfinetada - Você é muito divertido. Quando eu me meto a abrir suas correspondências, você dá ataques e fala queixudo.

Ela aponta para o meu quarto. Vou até lá. É uma caixa pequena, com uns desenhos indecifráveis. Abro o tal pacote e dentro dele há apenas um bilhete escrito com uma letra garranchada - Encontre-me na Rua da Hora hoje às onze da noite. O que tenho a oferecer pode lhe ser bastante útil. Estarei todo de vermelho.

Que diabos alguém que eu não suponho a existência quer comigo na Rua da Hora às onze da noite? Estes desenhos... Mulheres deformadas? Pessoas mutiladas? Restos humanos? Arpão penetrando olho de bicho? Talvez não passe de um trote, mas o troço veio endereçado a mim, com meu nome escrito direitinho, sem erro de grafia.

Faltando quinze para as onze, estou no local marcado. Uma inquietude medonha me domina, acelera meus batimentos. Às onze em ponto avisto um sujeito que dá pinta de ser o do bilhete. Estatura mediana, nem forte, nem magro, e mancando de uma perna. Me aproximo cautelosamente. Ele usa uma massa de cera em seu rosto para não dar nenhuma dica fisionômica. Suando em bicas me dirijo a ele, mas antes que eu mencione qualquer palavra, sou interpelado - Lucas?
- Sim, respondo admirado por ele me reconhecer. O que você quer comigo?
- Te esclarecer
O diálogo lacônico me deixa ainda mais aturdido.
- Me esclarecer o quê?
- Sua mãe
- O que você sabe sobre minha mãe?
- Ela fez mal a pessoas que eu amava muito.
O homem vestido de vermelho fala com aflição e treme.
- Ela forjou, Lucas, solipsizou.

Uma pausa se faz e por dois ou três segundos minha compreensão fica amarrotada.

- Lembra de Zilda, uma ex-empregada de sua mãe? Era minha espiã. Ela me falou sobre uns potes de arsênico lá na sua casa, entocados em um armário.

A história não é inteiramente destrambelhada. A filha da puta realmente guarda veneno. Nunca comentei uma vírgula a respeito, mas sempre achei estranho pois nunca vi utilidade nem necessidade naquilo. E aquele veneno? Seria algum dia destinado a mim? Teria ela a coragem de me exterminar como se eu fosse um rato?

- O desmantelo nunca mais foi reparado. O tempo pode secar muitas coisas. Mas quando o confisco é grande, a memória não se apaga.

A conversa me faz oscilar entre a irritação, a curiosidade e uma vontade, difícil de controlar, de escapar dali. Resolvo encurtar o papo.

- E o que você pretende ao me contar tudo isso?
- Lhe fazer um pedido.
- Qual?
- Mate-a.

O imperativo me fulmina. Eu sempre quis matá-la. Talvez falte um empurrãozinho. Não posso negar que a idéia me atrai. Cortá-la, picá-la milímetro a milímetro, que seria o modo mais honrado de dar fim àquelazinha. Ou mesmo um ato ligeiro, um tiro, uma bala veloz... Mas sou muito mole. Minha lassidão não permitiria.

- Você é louco? Você quer que eu mate a minha própria mãe? – indaguei com voz aprumada.
- Sim. E logo.
- O que ela te fez?
- Tenho que ir agora.

O estranho sai em uma passada magoada, arrastando a perna doente. Parecia que a qualquer momento o chão pudesse ser extraído de seus pés.

Uma vertigem toma conta de mim. No caminho de volta, a confusão é o enredo. A manhã seguinte é a de sexta. E toda sexta, antes do nascer do sol, minha mãe sai sem dizer o seu destino e chega não raro no outro dia. Aproveito sua ausência para inspecionar a casa. Reviro seu quarto e o porão. Nada suspeito. Mas quando abro a porta do armário, noto o pote de veneno, mencionado pelo estranho de vermelho. Reparo no rótulo as mesmas inscrições do embrulho. Que relação minha mãe tem com tudo isso? Qual o motivo de tanto ódio? Por que ela guarda o pote? Mudávamos de endereço, de cidade e até de estado sem motivo aparente. O dinheiro dela não tem origem identificável. Vivemos de uma herança deixada por parentes que nem sequer aparecem em álbuns de fotografia.

Caminho até a cozinha com o pote de veneno na mão. Ao meu redor, um ambiente levemente desarrumado. Melhor dizendo, descabelado e fiel a mim. Enquanto sorvo o local com a minha tontura, enxergo aos poucos a beleza que é a minha vida. O meu lugar incontestável é a preguiça. Estar à toa, ser contemplativo, não render nada a ninguém. Não quero mais alguém a meu lado me cobrando o tempo todo para que eu saia desse lugar, desse quente lugar.

Devo a minha libertação ao estranho de vermelho, que com sua proposta me transfere uma carga de ação insuportável para mim. Resta-me uma única coisa a fazer: ir embora. Seguir para algum canto onde não se tenha notícias minhas, onde todos me desconheçam e eu possa viver em paz com minha indolência.

Não vou fazer isso agora. Quero olhar uma última vez para ela, em agradecimento. Enquanto isso arrumo as malas, apenas com roupas e pertences. Alminha, no pequeno jardim, destrói algumas flores. Olhar para o dia me cansa pela espera.

Já se passava uma semana e ela, que saiu na sexta, não havia voltado. Seu feito é inédito. Até na hora da minha libertação, ela arranja um jeito de me castigar, de arremessar o meu prazer para um ponto do tempo que está fora da costura. Muito esquisita essa ida sem retorno. E se ela já sabe dos meus planos? E se ela e o estranho de vermelho são aliados e não inimigos? Será que minha vida está em risco, logo agora que estou pronto para romper com o que me agarra?

Na caixa de correspondências, mais um pacote com as mesmas inscrições. Desta vez dois bilhetes. O primeiro diz: “Já que você não se manifesta, devo tentar outro caminho. E este será bem pior para você”. E no outro, mais uma frase caliginosa: “A náusea se engrandece porque o ciclo não se interrompe”.

Não devo ficar aqui nem mais um minuto. Já é tarde da noite. Partirei no dia seguinte. Eu e minha trouxa magra.

Enfim, a manhã do outro dia. Acordo de um sono que praticamente não existiu. No espelho vejo um rosto excessivamente feio. Pego minhas coisas e quando estou atravessando a sala em direção ao portão da rua, ela está lá. Minha mãe retornou.

- Para onde você vai?
- Arranjei trabalho – disfarcei
- Vamos ver quanto tempo isso dura

Ela carrega um pacote familiar na mão.

- Um garoto de bicicleta jogou esse embrulho por cima do muro. Desta vez, é para mim.
- Tenho que ir. Estou atrasado.

Olho pela última vez para ela, esperando ter conseguido esconder que se trata de uma despedida. Passo pelo pequeno jardim. Alminha dorme. Ando pelo corredor que dá acesso ao portão. Já na rua, eu corro. Corro o mais veloz que posso e pela primeira vez a claridade da manhã não me propõe um desafeto.

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3 Comentários:

Às 5:39 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Senti o cheiro mofado de uma casa escura onde os morcegos deixam manchas circulares de cocô semi-líquido nos lençóis.Os armários contém camadas arqueológicas de inutilidades intransponíveis. Encontrar a coleção de bolinhas de gude da infância é empreitada que pode custar para sempre a saúde dos pulmões.A toalhinha de croché feita pela avó defunta paralisa todo intento de vôo.
O suor é azedo vinagre, a boca é uma fossa de dentes cariados, as carnes flácidas do braço são o último insulto ao sexo.

 
Às 10:06 PM , Anonymous Diego disse...

Esse tom ao mesmo tempo sombrio e doce, essa costura da busca sem necessariamente ser nóia de permanência, esse embrulho que traz o mistério como presente, essa fuga misturada com o amparo... Belíssimo conto. Voltarei aqui mais vezes. Um grande abraço, Guto Melo!

 
Às 9:11 PM , Anonymous lucordeiro disse...

Impiedoso, mordaz e bem feito. E algumas situações me são familiares. Coisas de quem gosta de inventar pretestos para escrever. Ô compulsão maravilhosa e inútil! Será que mais de meia-dúzia de iguais delirantes se interessam pelos mundos que criamos?
Um beijo e apareça.

 

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