sábado, dezembro 09, 2006

De Volta Para Casa

Esta coisa de não conseguir frear e não conseguir calar. De expor a intimidade para os tecelões da indiferença, para a gente miúda de afeto. Isto de ser inábil em conter a energia avassaladora do meu corpo, de montar o meu sorriso apaixonado pelas coisas movediças em torno de um jardim de dentes sem esmalte.

A caligrafia do que sinto é difícil. Nela, se confunde desapego com intenção. Alegria com imodéstia. Associações sinuosas, sem préstimos de desígnio, com disparate. O mundo é uma costura de sabão. Mas a roupa suja se lava em casa. E logo em casa, que é lugar de descanso.

Ontem estive em uma festa cheia de gente risonha e aparentemente feliz. Por dentro, olhando bem nos olhos de algumas figuras, dores subterraneamente se derramavam, como uma cachoeira silenciosa sobre a pedra que era o próprio espetáculo. A fartura, a saliência, as altas risadas, o som na vitrola, a cerveja no ponto. Detrás da cortina, olhares caídos de ansiedade, lábios cortados pela desnutrição e o meu gosto por ser abstrato - um jeito que encontrei para não atrair as pessoas.

Numa dada hora houve uma retirada coletiva. Um ir embora combinado. Os que ficaram estendiam suas mãos, queimavam palha. As palavras trocadas aproveitavam a janela aberta para alçar vôo. Lá fora, a chuva fina riscava o semblante da vida. E eu ali, irremediável, emendando frases, tentando recuperar minha saúde. Às vezes me apagava porque não me fumavam a tempo.

Enfim, chega o momento de voltar para casa. Mas quem disse? Eu quero um bar. E quero transmissões hematopoéticas. Um amigo me acompanha. Distraio-me com minhas nuvens e disfarço a multidão que habita em mim. Esqueço de dar um telefonema. Aliás, acho que nem cogitei. Abuso do meu sentido de religação. Assopro os horrores, dou uma puta de uma cagada fedorenta, pago a conta e vou embora. Desta vez, para casa. De verdade.

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7 Comentários:

Às 4:38 AM , Blogger quina vida disse...

mundos atraentes por sua inconsistência objetiva, não?...

 
Às 5:52 AM , Anonymous gleizer disse...

talvez... mas do mesmo modo há repulsa. uma imagem das ondas mar... tão velozmente nos puxa ao seu encontro que de encontro a ela violentamente iremos.

 
Às 8:36 AM , Blogger Flavio Vaz disse...

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Às 8:36 AM , Blogger Flavio Vaz disse...

Valeu, Guto, por visitar o meu blog, sinta-se à vontade para chegar mais vezes. E vi que o PPS do Vivente está na tua lista, o que pra mim é uma boa referência, Vicente é sangue bom. Abraços.

 
Às 5:51 AM , Blogger sara lee disse...

começo a gostar da tua fantasia pq vc nunca para de parecer uma pessoa real como quase não fazem mais.
hematopoética, eu usei pela primeira vez lá em 97...é legal gente q por um instante, noutra estante, sente igual

 
Às 3:21 AM , Blogger menina disse...

Às vezes se desperdiçar fora é um jeito de encurtar o caminho para se encontrar dentro (de casa ou de si mesmo).
Obrigada por sua visita no meu
e-cafofo.
Fernanda Favaro

 
Às 4:42 PM , Blogger Jane Malaquias disse...

Da próxima vez avisa que não vem jantar.

 

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