quarta-feira, novembro 15, 2006

Tocando em Fumaça

Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando fui ver Ascension, primeira individual do artista indiano-britânico Anish Kapoor na América Latina, foi a vontade dos espectadores de tocar nas obras, embora elas não tenham sido feitas para isso. Era uma espécie de tentação, de curiosidade pelo mistério que parecia emanar de cada trabalho. O aspecto imaterial e insondável que existe em Kapoor, ao meu ver, é o que gera esse desejo de chegar perto. Desejo fortalecido pelos truques emprestados da siderurgia e da arquitetura a criar efeitos que, além de desorientar a relação com o espaço, definiram em mim a sensação de que a qualquer momento eu poderia ser tragado por uma daquelas obras e desaparecer nelas.

A escultura Dividir foi a primeira experiência que fez os meus olhos vibrarem. Três toneladas de cera vermelha no chão dispostas como se viessem do fundo da parede e se abrissem em direção a quem está diante da obra. A cor e a perspectiva, instantaneamente, me ofertaram a cena do elevador de O Iluminado, de Kubrick. Aspecto puramente visual e inusitado, uma vez que não há intenção de terror psicológico em Dividir.

Na instalação Ascension, que dá título à mostra, uma coluna de fumaça em espiral sai do chão a uma velocidade de mais de 100 km/h até um equipamento colocado no teto. O imaterial, metaforizado pela fumaça, se transforma em material sob a forma de uma coluna, sustentada por uma estrutura aerodinâmica especial. Crianças pulavam ao redor da obra e despenteavam o seu traçado; pessoas jogavam pedaços de papel para ver se algo extraordinário acontecia. As interferências naturais produziam resultados encantadores. A coluna se decompunha, dispersava-se em névoa, em cortina, tornava-se frouxa. Uma pausa nos movimentos e ela voltava a se formar, num doce vaivém de montar e desmontar.

Impressionante também é Pillar – uma espécie de cabine em que o espectador entra e perde a compreensão de onde está. Confunde a distância, que se revela imprecisa; tem o impulso de apalpar a obra amparado em uma intenção fugitiva. Algumas pessoas tiveram medo de cair – acusavam tontura. Outras se nutriam, mais uma vez, da difícil ambição de atravessar a obra. Difícil pela consciência da impossibilidade do ato. Mas a vontade estava nelas como uma veleidade teimosa que o aspecto lúdico oferecia. Pois é como se Pillar fosse uma passagem para um mundo inexplicável e fantástico. E que só poderia ser bom, já que aquela tontura era sem náuseas, sem mal-estar.

Vale então fazer um registro (perdoem-me a digressão). Ultimamente, a interatividade vem sendo usada como pretexto fútil na arte contemporânea. É incômodo, no mau sentido, ver um trabalho como Dark Room, de Wang Youshen, ser colocado na 27ª Bienal de São Paulo como exemplo estético de “Como Viver Junto”, tema desta edição. A obra consiste em um estúdio fotográfico montado para que o público revele seus negativos, em preto e branco. É aquele tipo de trabalho que se autoproclama resultante do próprio processo, reivindicando um espaço em que artista e público compartilham a criação. Porém, pode soar demagógico na medida em que uma lista afixada na parede indica o passo-a-passo dessa interação. Ou mesmo, movido por laivos de aflição, forçar uma intimidade que não existe, o que torna a obra chata.

O prazer de ver Kapoor reside, entre tantas outras coisas, no fato de ele não pagar o mico da retórica visual nem utilizar conceitos para forjar a si mesmo. Nele, a insuficiência do discurso é substituída por uma tentativa de apontar rituais de passagem para o espectador. Talvez por isso insista em afirmar que não tem nada a dizer e que, se tivesse, seria um péssimo artista.

Ascension reúne outras cinco obras: Espelho Duplo, Íris, Quando Estou Grávido, Feridas e Objetos Ausentes e uma sem título. Fica em cartaz em Brasília até 7 de janeiro, depois de ter passado pelo Rio. Da capital, segue para São Paulo.

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2 Comentários:

Às 6:55 PM , Blogger LEMINSKYLAND disse...

eu também não tenho nada a dizer diante da fumaça, do metal e da cera vermelha dele.

 
Às 5:30 AM , Anonymous Jane Malaquias disse...

Alice no país das maravilhas, Mary Poppins voando de guarda-chuva, a fumaça vertical de um incenso numa sala sem vento, a cêra vermelha das batas indianas tingidas no batik, os gráficos em forma de fatia de bolo, o mundo fatiado, falar de si longe da casa, fabricar a enésima maravilha do mundo.

 

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