sábado, novembro 11, 2006

Amor de Psilídio

Certa vez a alma do genoma de uma bactéria foi seqüenciada. Da análise, foi colhido material para uma história lastimosa. Carsonella apaixonou-se perdidamente por Psilídio - um inseto desgraçado que vivia chupando a seiva das plantas. Da seiva, Psilídio extraía o açúcar, mas não os aminoácidos necessários à sua sobrevivência. Carsonella, apesar de contar com parcos genes, oferecia todos os aminoácidos que seu adorável inseto precisava e se tornou a simbionte mais dedicada do reino unicelular procariota. Psilídio, saciado, voltava para o pé de goiaba, desatinado de desejo.

- Quero sugar-te em teus bordos e tuas folhas, para que injetes em mim toda tua alegria. Então, enrolo-me inteiro com a tua doçura, fico verde e depois fagueiro e depois erótico.

A Goiabeira amolecia, menos por cair na lábia do Psilídio, e mais por estar impedida de desenvolver suas brotações, com seus galhos infestados, folhas encrespadas e impregnada de inseticida. O inseto, resistente ao veneno e cada vez mais cheio de vida, construiu células especiais para alojar a Carsonella em seu interior. Em troca, oferecia a ela o açúcar que roubava da Goiabeira. Carsonella se sentia protegida, segura, dentro de seu Psilídio fofo e bem nutrido. Assim, costuraram uma cumplicidade que parecia infalível, como deve ser em toda intimidade.

Um belo dia, Coleobroca apareceu pelas bandas do pomar onde estava plantada a Goiabeira que o Psilídio chupava. Enorme, com seus trinta e tantos milímetros de tamanho, assustou o miúdo Psilídio. Coleobroca fincava suas mandíbulas no tronco da Goiabeira, inventava ruídos surdos guturais. Era uma verdadeira larva-cadela! No chão, próximo à árvore, a serragem como lágrimas expectoradas de milhares de furos e aberturas que ali existiam.

Triste por não ser mais praga dominante, Psilídio perambula meio aflito e um pouco sonolento. Como o açúcar naquele dia não veio em grande quantidade, Carsonella também não teve o seu quinhão. No meio do caminho, uma tal de Xylella deu bola. Psilídio, com o pouco de energia que lhe restava, se aproximou da bactéria exuberante, na plenitude de seus 2.904 genes. Abraçaram-se, chamegaram e, em pouco tempo, Xylella invadiu o inseto e sem muito esforço expulsou a rival Carsonella. Esta, sem condição de produzir sequer a sua própria membrana celular, lutava para não morrer, torta, envergada pelo desterro do abandono.

Psilídio seguia risonho, saltitante. Sentia o odor de algo cítrico, possivelmente uma Laranjeira. Convidava Xylella para bailar e seguir adiante na vida. Do alto de sua tolice, não percebia que a goma de sua nova amada não entupia mais os vasos das plantas como antes, que suas regiões codificadoras de proteínas andavam meio debilitadas. Xylella era um ser que crescia lentamente e a sua exuberância à primeira vista disfarçava os genes do declínio, do ocaso. Aos olhos de Psilídio tudo era belo, sem a menor lesão de cor.

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3 Comentários:

Às 12:20 PM , Blogger Trelles disse...

O yeah!
Benvindo Irmão! Muito bom saber de ti desta forma.
Tu tá tinindo, cabra!
Grande Abraço,

 
Às 6:53 PM , Blogger LEMINSKYLAND disse...

um belo conto de amor e erotismo. muito lindo!

 
Às 12:43 PM , Blogger Fábio D. disse...

Mistureba poética!?

 

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